Translation

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Humor e poder nos traços de Léo Vilanova: a vida estadual

 Este é o trabalho do Léo: seus textos sobre Alagoas. A águas que tanto nos demarca, dá o tom da tragédia como resultado político. A soma de anos de descuido com a urbanização da cidade e privilegiamento do capital ligado ao imobiliário
Os desenhos do Léo são publicados diariamente pela Gazeta de Alagoas.





Humor e poder nos traços de Leo Vilanova: a política nacional




Sou fan de carteirinha do Léo Vilanova. Alagoas teve e tem grandes cartunistas e dentre eles, Léo está em primeiro plano; não se trata de algo gratuito, é que faz uma bela reflexão sobre a vida e a política, conseguindo o efeito inusitado da comunicação imediata em seus desenhos: a leitura do nosso andamento em traços e cores de forma magistral. Os desenhos do Léo são publicados mensalmente pela Gazeta de Alagoas.










sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A vida no sertão: o carro de boi e sua procissão









João Neto Felix Mendes


Santanense. Bancário aposentado, pesquisador fotográfico da cidade, músico e cronista. Graduado em Administração pela Universidade Federal de Alagoas. Membro da Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes – Santana do Ipanema AL. É autor do conto Quatro Mortes e Nenhum Funeral e Histórias Engraçadas: O Acordo, O Imprevisto e Pessoa Sem Confiança, À Sombra do Umbuzeiro, Casos e Loas, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2006. Na Tarde das Rosas Vermelhas, Histórias Engraçadas; Tito Aboiador, Seu Liô e a Festa do Jorge, À Sombra do Juazeiro, Casos e Loas, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2008. Homens e Meninos, À Procura da Felicidade, O Visitante Ilustre, À Sombra da Quixabeira, Casos e Loas, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2010. Várias obras publicadas no Portal Maltanet, Santana do Ipanema: www.maltanet.com.br


PROCISSÃO DOS CARREIROS INICIA FESTEJOS À PADROEIRA DOS SANTANENSES

João Neto Félix Mendes





            
Todos os anos a procissão de carros de bois dos agricultores sertanejos de Santana do Ipanema, faz a abertura oficial dos festejos da padroeira Senhora Santana. A religiosidade é representada pelos instrumentos de trabalho, família e fé. “Procissão” provém do latim “procedere”, que significa seguir em frente, marchar. É grupo organizado de pessoas caminhando de maneira formal. Marcha solene pelas ruas da cidade, carregando imagens, entoando cânticos e orações. Esse ritual, segundo a crença, torna as pessoas e os lugares abençoados. Como rebanho que segue seu pastor e nele confia seu destino, assim o povo de Deus caminha lado a lado, dividindo as dificuldades do existir, mas certos de que a Graça Divina basta e mais nada. Esse gesto simbólico secular presente no inconsciente coletivo revela que somente a convivência solidária e participativa entre os irmãos, seguindo o itinerário de fé, conduz ao encontro de si mesmo, dos irmãos e de Deus, por intercessão de Senhora Santana, Excelsa Padroeira dos Santanenses.
            Segundo estudos consagrados por diversos pesquisadores santanenses, o povoamento da cidade está essencialmente relacionado à atividade missionária católica desde o final do século XVIII. O povoado nasceu em torno de uma Capela à Senhora Santana que o Padre Francisco Correia construiu na fazenda do sertanista Martinho Rodrigues Gaia. A Festa religiosa acontece no mês de julho, no período de 16 a 26.07, sendo feriado municipal no dia 26.07, dia da padroeira e dia do avô. Afinal, São Joaquim e Santa Ana são os pais de Maria, portanto, avós de Jesus. O nome primitivo da cidade foi Santa Ana da Ribeira de Ipanema, depois se adotando a forma simplificada Sant’Ana do Ipanema.
        
   
 O uso ancestral de carro de bois pelos sertanejos é uma tradição da época do Brasil Colônia. O rudimentar veículo ainda hoje é utilizado para transporte da produção, para o deslocamento na zona rural e também para ir à feira na cidade vender ou comprar alguma coisa. Na época de plantio de milho e feijão, os bois são utilizados para puxar o arado de tração animal e arar a terra. Segundo o historiador Santanense Profº Clerisvaldo Chagas, autor de diversos trabalhos sobre o tema, “o arcaico meio de transporte, a despeito do modernismo dos tempos atuais, continua em voga, prestando relevantes serviços ao homem do campo. Em Santana do Ipanema, o veículo foi e continua amplamente utilizado, destacando o Município como “Terra dos Carros de Bois” em tempos passados.
            Constam registros fotográficos os carros de bois estacionados nas feiras nas proximidades na Usina de Beneficiamento de Algodão, à Rua Ministro José Américo, portanto no centro da cidade, em meio aos transeuntes.  Certamente deve ter transportado produtos do campo para venda na feira, numa rua de intenso burburinho e muita interação entre pessoas, contudo também próximo de passagem para saída, se preciso. Em outra foto, vários carros enfileirados atravessam o leito seco do Rio Ipanema em direção ao centro da cidade transportando suas cargas para venda, numa época em que ainda não havia pontes sobre o Rio Ipanema.Esses veículos foram muito importantes no passado, sempre úteis na opção de carregar mercadorias pesadas de todos os tipos e transporte de pessoas para os mais diversos eventos: novenas, feiras, festas ou viagens curtas ou longas. Do interior levavam para os portos fluviais ou marítimos diversos produtos: Cereais, queijos, carnes, couros e peles, fazendo o caminho de volta para os sertões trazendo ferramentas, tecidos e produtos industrializados”.
 Diz ainda o Professor, que desde o tempo de Vila que Santana do Ipanema possuía calçamento de granito bruto no comércio e em algumas ruas. Ao substituir o calçamento pelo esquadrejado paralelepípedo, o Prefeito Ulisses Silva (1961/1965), proibiu a circulação de carros de bois pelas ruas do comércio. Foi assim que o novo carreiro criou o carro de boi com rodas de pneu, pois o aro de ferro prejudicaria o novo tipo de calçamento. Mesmo com o impedimento de circulação no centro da cidade, o uso do veículo pelos produtores rurais continuou intensamente, por se tratar de veículo de carga compatível com o poder econômico dos ruralistas”. Em muitos momentos, comprova-se a concentração de carros de bois estacionados nas areias do Rio Ipanema nos dias de feira, antigamente. Há registros fotográficos dessa movimentação social e constam de livros históricos, como por exemplo; “Santana do Ipanema Conta sua História”, pg.80, de Floro e Darci de Araújo Melo.


Ainda existem fabriquetas de carros como antigamente e muitos artesãos continuam demonstrando habilidade e perícia na fabricação dos veículos, motivados pelos diversos movimentos que estimulam a continuidade da produção, tais como: Procissão de carros, concursos, encontros e outras manifestações de apreço que procuram manter viva a tradição no médio e alto sertão de Alagoas. Fabricar esses carros é coisa de mestre com muitos anos de dedicação ao ofício.  Inclusive, exemplos de como essa cultura permanece viva no imaginário das pessoas é a reprodução da figura do carro de boi nas artes. Artesãos santanenses produzem miniaturas; sejam de madeira, barro ou de ferro e vendem como souvenir. Artista plástico, escritores e cordelistas também produzem trabalhos ilustrando e decantando a vida interiorana e o uso cotidiano do carro de boi.
            “O carro é composto por duas rodas, mesa de madeira e um eixo. As rodas são feitas de madeira de boa qualidade, com um anel de ferro de forma circular nas extremidades, para garantir maior resistência. Primitivamente, o carro não era ferrado e as pessoas diziam que “o carro andava na madeira”. A grade possui cerca de três metros de comprimento por um e meio de largura, com duas peças mais resistentes de cada lado e uma terceira no meio, mais  comprida, destinada a atrelar o carro à canga, uma peça, também de madeira, com mais ou menos um metro de comprimento, contendo um corte anatômico para assentar bem no pescoço do boi, sendo segura por uma correia de couro chamada de brocha. A grade é apoiada sobre um eixo. O ponto de apoio da grade sobre o eixo são duas peças de madeira chamadas cocões. O chiado ou cantiga característica do carro de boi é produzido pelo atrito do cocão sobre o eixo”.


Segundo, ainda, o historiador Profº Clerisvaldo, “eis as partes da anatomia de um carro de boi: (*registrado o nome popular da árvore que fornecerá madeira para a fabricação da parte descrita).  Existem diferenças na apresentação do carro de boi da Zona da Mata e do Sertão, dentro do mesmo estado e outras diferenças entre carros de bois de estados diferentes. A essência, entretanto, é a mesma.
Peças do Carro de Boi em ordem alfabética:
1-Cabeçalho (*de Aroeira), parte de madeira quadrada e longa do carro que fica entre os bois traseiros para ser puxados por eles;
2-Cantadeiras (*de Craibeira), duas partes de eixo, mais escavadas, que ficam abaixo das chedas. Uma em cada extremidade do eixo. O atrito das cantadeiras com os cocões produz o chiado singular, o cantar do carro de boi;
3-Chedas (*de Baraúna), são partes laterais da mesa do carro, no leito, onde se tem encaixes dos fueiros;
4-Cocões (*de Bom nome), cada um das peças de madeira na qual faz girar o eixo do carro de boi. É uma espécie de presilha. Ficam por baixo das chedas, duas de cada lado do eixo;
5-Costelas,  encaixes das partes da roda, três pranchas que formam a roda;
6-Cunha, para as cabeças do eixo;
7-Eixo (* de Baraúna de charco, ou Angico ou Aroeira bem madura), peça que faz a roda girar;
8-Ferro (ferrar o carro); da mesa: vergalhão para amarrar as tábuas da mesa;
9-Forras ou rilheira, suportes que atravessam transversalmente o cabeçalho, sobre os quais se apoiam as tábuas da mesa;
10-Fueiros (*de Pereiro), várias peças, cacetes, roliços e brutos que predem a carga ao carro;
11-Mesa (*de Craibeira), superfície onde se coloca a carga;
12-Palmatória, são as duas partes da frente da mesa, uma a cada lado do cabeçalho. O carreiro costuma guiar os bois, sentado na palmatória, às vezes;
13-Repuxo,  espécie de reforço raiado para reforçar a roda;
14-Requevém, são dois. Saliência na traseira da mesa;
15-Rodas (*de Craibeira ou Jacarandá), colocadas internamente nas pranchas por furos retangulares, estas fixadas por grampos e chapas de ferro. A circunferência é coberta com chapa de aço fixada à madeira com grampos de aço cuja forma arredondada deixa um rastro característico. Outras medidas de carro de boi: 12 palmos de comprimento, 06 palmos de largura e 06 palmos de roda”.
            Acessórios do Carro de Boi: 1. Azeite (de mamona), para azeitar o eixo, as cantadeiras. 2. Isope (hissope), chumaço num cambito para azeitar o eixo. 3.Ponta, que pendurada ao fueiro traseiro por uma correia serve de depósito para conduzir o azeite e o hissope.

            Arreios dos bois

1. Broxa, correia de couro cru, curtido e torcido que une um canzil a outro, passando por baixo do pescoço do boi.
2. Cambão, peça de madeira que liga as parelhas de trás as da frente.
3. Canga (*de Craibeira e Braúna), peça que se prende ao cabeçalho ou ao cambão e colocada sobre o pescoço do boi.
4. Canzil (*de Bom nome e Pereiro), cada um dos 04 paus da canga, colocados de cima para baixo, entre os quais o boi mete o pescoço, entre dois deles. Plural: canzis.
5. Chave (*de Bom nome), peça que prende a canga ao cabeçalho + correia de couro cru.
6. Correia de ponta, peça para unir as pontas furadas de cada parelha.
7. Corrente, parte que complementa o cambão, às vezes é de corda.
8. Látego, parte do arreio que sustenta o sininho, muito usado nas parelhas da frente.
9. Sininhos, pendurados nos látegos e que servem de advertência de aproximação do carro de boi ou simples enfeites.
10. Tamboeiro (ou Tamboeira), correia de couro cru, curtido e torcido que prende a chave do cabeçalho ou cambão à canga.
11.  Trela, peça de sola que, na cara do boi, leva os enfeites.
Acessórios do Carreiro
1. Corrião (de couro cru e cabo de madeira) – Serve para açoitar os bois e é conduzido no ombro, espécie de chicote.
2. Facão (de arrasto ou rabo de galo) – Objeto cortante robusto para trabalhar em diferentes tarefas e ocasiões durante as viagens.
3. Vara de ferrão (de Quixabeira, assada ao fogo, na caieira) – Serve para conduzir, guiar e castigar os bois.
Tolda
1. Tolda (de esteira de piripiri), armação para amparar do sol e da chuva, principalmente, ao transportar pessoas.
2.  Amarração (de palha de Ouricuri), amarra-se a tolda aos fueiros.
3. Arcos da tolda (varas flexíveis de cipós ou marmeleiro), serve para arquear a tolda, por baixo, amarradas aos fueiros com a palha do coqueiro Ouricuri.
 A procissão anual dos carreiros na Festa de Senhora Santana é um evento coordenado pela Associação dos Carreiros. Segundo o agropecuarista Luiz Alves Ribeiro, um dos idealizadores do evento, afirmou que a ideia surgiu durante as festividades do I Encontro de Carros de Bois, realizado lá nos anos 2000, no Parque de Exposições Isaías Rego, em Santana. Referido encontro teve por objetivo promover a troca de experiências, intercâmbio e congraçamento entre os carreiros. No evento também acontecem competições de demonstração de força de tração entre os animais e premiação para o carro mais enfeitado, por exemplo. Na Missa de encerramento do encontro o Padre Delorizano M. da Rocha, sugeriu que fosse a Procissão de Carros de Bois, evento de abertura da Festa da Padroeira Senhora Santana. Aprovada a sugestão, no ano seguinte, o cortejo chegou a 700 participantes. Na edição de 2015, chegou-se ao incrível número de 1400 participantes.


A concentração ocorre no parque de exposições Isaías Vieira Rego, zona rural, às margens da rodovia AL 130. Percorrendo um trecho aproximado de 2km.  A romaria é liderada pelo carro de boi que transporta o pároco e a charola ornamentada com a réplica da imagem de Senhora Santana que esteve percorrendo a zona rural em novenas nas residências da região, como parte dos preparativos para a festa da padroeira. É muito comum, antes de cada período festivo, na liturgia católica, a realização de novenas nas casas das famílias que se oferecem para o rito diário com leituras, rezas e cantos. Os exemplos mais clássicos são a via sacra, no período da quaresma e as novenas natalinas, no período do advento.
            Diz o psicanalista, escritor e educador Rubem Alves “o carro de boi é guiado pelo carreiro que caminha ao lado dos bois ou sentado no próprio carro. Na mão ele tem uma vara comprida com um prego na ponta: é o ferrão. Com o ferrão ele espeta o boi que está fazendo corpo mole, ou o boi que está indo na direção errada. E os bois obedecem. É impossível não obedecer às ordens da dor. Porém, o orgulho do carreiro está na música que o carro faz. Carro de boi é instrumento musical. A madeira do eixo, girando apertada na madeira de encaixe, produz um som contínuo e melancólico, pranto de carpideira, lamento sem fim”.
 Como um maestro, a vara do carreiro se transforma em batuta e as músicas dos carros ecoam e elevam aos céus a sinfonia pranteada dos seus carros, que tem cheiro e gosto da lida diária e do suor sagrado do trabalho simbolizando celebração e agradecimento. No olhar disperso de tantos homens anônimos, rostos enrugados pelas marcas do tempo revelam o esforço repetitivo e incansável de desvendar os segredos da terra e dos mistérios contidos no singular exercício de cultivar e cuidar dos seus animais. Nas linhas quase escondidas das mãos calejadas desses bravos guerreiros estão escritas histórias de gente simples que nunca se cansa de esperar por tempos mais favoráveis.
A beleza visual antagônica da marcha religiosa dos rudimentares carros disciplinarmente enfileirados na negritude asfáltica da rodovia AL 130, esbanjam rusticidade, mistura de passado e presente, ritual repleto de significados. Cada carreiro leva, no seu veículo, sua família, parentes e amigos nesse simbólico gesto de preservação de costumes de outrora. Quando chegam as imediações da cidade, nas proximidades do Serrote Micro-ondas, descortina-se paisagem extasiante da cidade abraçada pelos montes que a circundam. É como se a natureza, providencialmente, estivesse abraçando e protegendo o povo do lugar. Ao chegarem à cidade, dirigem-se ao Largo Cônego José Bulhões onde a multidão aguarda a chegada e estacionamento dos carros para início da Santa Missa à Padroeira Senhora Santana. Sobre a carroceira de um caminhão se instala um altar provisório aonde o pároco conduz o ato religioso.


Ao final da Missa saudações calorosas e eufóricas são feitas aos carreiros e à Padroeira. Depois de abençoados, encerra-se o encontro e se inicia a dispersão com o cortejo de volta ao local inicial. Aos poucos, todos retornam aos seus lugares, à labuta diária da bucólica vida rural. Ali, longe dos olhares citadinos, famílias não param, continuam com afinco seus afazeres. A simbiose dos homens rurais com os carros de bois é digna de admiração e continuará fortalecida nas relações socioeconômicas, além de permanecer no imaginário afetivo das cidades interioranas, fato que não se pode prescindir de jeito nenhum, pois a despeito do progresso em que vivemos, a sociedade ainda carrega a marca indelével das coisas simples da existência, do modo de viver e dos símbolos que fortalecem o elo que parece que se perdeu no caminho da evolução. Somente parece.
A Festa da Padroeira é momento especial de reflexão e oração na comunidade paroquial onde acontece e cada vez mais, procura inserir em seus rituais elementos do cotidiano do povo, destacando sua importância na espiritualidade. Durante nove noites vários temas são apresentados para meditação e cada dia há um padre convidado para presidir a novena. A primeira parte da missa reza-se cantando a Ladainha de Nossa Senhora com muito fervor, exclusivamente no período da novena. Depois, prossegue-se a missa como de costume. Poucos lugares ainda mantém esse ritual litúrgico. Encerrando o culto, os santanenses cantam emocionados e em uníssono o hino em louvor à Padroeira, invocando bênçãos e graças mil sobre os sertões. No ano de 2016 comemorou-se 180 anos da criação canônica da Paróquia. No dia da padroeira, pela manhã, reza-se a missa solene, concelebrada pelo Bispo Diocesano, Padre anfitrião e outros Párocos convidados. À tarde, milhares de fiéis participam da procissão percorrendo várias ruas da cidade. Ao final do cortejo, encerram-se as comemorações na Praça da Matriz.
A discussão do tema Procissão de Carros de Bois na Procissão de Senhora Santana tem suscitado pesquisas tanto no meio popular e artístico, quanto no meio acadêmico. Tanto é que discentes do curso de Economia da UFAL da unidade de Santana do Ipanema tiverem trabalhos aprovados na 18ª Conferência Brasileira da Folkcomunicação realizada em maio/2017 em Recife, reunindo pesquisadores de vários Países. Este ano, o tema foi Folkcomunicação, cidadania e inclusão social no contexto das rurbanidades. As pesquisas sobre o potencial político emancipatório das manifestações populares foram apresentadas por discentes e abordadas em palestras de professores convidados. Os trabalhos apresentados pelos graduandos da UFAL abordaram temas ligados às manifestações folk na procissão de carros de boi, na festa de Senhora Sant'Ana, em Santana do Ipanema, dentre outros, conforme noticiado pela Universidade.



Artes plásticas: pintura em Alagoas




A artista é professora voluntária pelo CENARTE (Centro  de Belas Artes) há um ano e meio. Sendo convidada para 6 (seis) exposições coletivas e realizou 3(três) individuais em parceria com o Governo do Estado de Alagoas e com a Faculdade Jaime de Altavila (CESMAC)em 2015\2016. 



Dois dedos de prosa

Esta é mais uma colaboração do Professor Eduardo Bastos. Desta vez ele nos traz o trabalho de Maria Tereza Lima que lida com imagem e índio. Um trabalho simples e ao mesmo tempo lírico e que merece ser divulgado.

Eduarda nos apresenta à pintora, ao dizer o que pensa sobre seu trabalho. Vamos ver. Para você dialogar com a obra, deixamos a possibilidade de você colocar os títulos de cada tela;

Um abraço

I - Um pouco sobre Maria Tereza

Maria Teresa de Lima (nome artístico Teresa Lima) Natural de Viçosa (AL) .

Filha de Maria José de Lima e Valdeci Ananias .Foi aos 3 (Três) anos criada por outra família ,Sr.Cicero Henrique Sobrinho –Projecionista e dono de cinema e Edite Henrique Silva –costureira ,em Cajueiro (AL).Onde viveu até os 21 anos.

Iniciou seus primeiros traços ainda criança. Aos 19 anos começou usar  os pincéis e tintas,adentrando no mundo criativo.Suas inspirações sempre voltadas a fatos cotidianos e temas sociais com estilos: Abstrato,figurativo e surrealismo.

Formada em magistério pela Escola Cenecista N.S do Livramento –Cajueiro(AL).Professora particular aos 16 anos na Escola Centro de Ensino Viber,exercendo esta profissão até o final de  2000.


Iniciou a faculdade em Administração Hospitalar na FAA(Faculdade de Administração de Alagoas)em Maceió,não chegando a concluir esta,preferindo dedicar-se às artes plásticas.

Autodidata,desenvolveu estilo próprio em cores e tribais em acrílico e também colagem , buscando sempre a temática em defesa do social.

Sua primeira exposição em 2013 foi no Instituto da Visão (Maceió-AL),e a partir daí em variados locais,sendo as mais recentes “Amostra Gratis ll Edição ,Curadoria Viviane Duarte Acioli e Rosivaldo Reis no Anexo Teatro Deodoro e no Memorial à Republica no segundo Salão de Arte sobre Direitos Humanos,realização da Secretaria Estadual da Mulher e dos Direitos Humanos.(Maceió).


II - A PINTURA CULTURALISTA DE TERESA LIMA

Eduardo Bastos


A pintura Naturalista, ressaltada com certo lirismo, marca expressivamente a pintura da artista visual Teresa Lima. Suas imagens abordam temas contemporâneos, passeando pelo surrealismo e o figurativo. A artista tem interesse especial por uma paleta multicolorida e o matizamento que dá as suas composições demonstra um grande domínio da cor, conferindo-lhe uma expressão muito pessoal. Suas obras, ao mesmo tempo em que valoriza os efeitos cromáticos da nossa cultura regionalista, tem o compromisso com a crítica social, os desmandos políticos e os preconceitos, desta maneira, provoca o observador a uma reflexão sobre as condições de precariedade social, cultural e histórica, com pinceladas enérgicas e vibrantes.

A artista participou de várias exposições, sendo três individuais - Na galeria do Cesmac, situada no antigo Colégio Guido, no Museu Floriano Peixoto e atualmente no Cenarte, além de oito coletivas.
Quanto à técnica, Teresa é multifacetada, possuindo amplo domínio em várias técnicas: acrílica, colagens, óleo, aquarela... Tira partido da técnica para fazer com que suas figuras pareçam ter uma intimidade com o entorno (público), não raro, confundir-se com ele. Seu estilo é marcante, possui personalidade forte, luminosa e expressiva. Apesar de corpos parecerem estáticos, cria uma atmosfera com feição brasileira. Sobre a obra da artista, pego carona em Mário Schenberg, físico e crítico de arte, num artigo sobre a obra do brilhante pintor brasileiro Francisco Rebolo Gonzalez, “ a significação dessas obras irá sendo compreendida cada vez melhor, na medida em que for desaparecendo a ideia superficial em que a obra de arte é essencialmente uma estrutura formal, em vez de uma comunicação de verdades fundamentais para a existência humana”.





Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

Maria Goretti Brandão


Jornalista, Assessora de Comunicação. Foi editora do blog, Ensaio Geral no Portal CadaMinuto, tem publicação no Caderno B do Jornal Gazeta de Alagoas. É autora dos contos, Para Comer, Beber e Dormir Comigo, O Conto das Alagoas, Recife: Ed. Bagaço, 2007, Carlito Lima, Edilma Bomfim, (orgs.). Coisa de Homem, Agosto, À Sombra do Umbuzeiro, Casos e Loas, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2006. Só Para Contar, Zilma e Eu Meio às Penas, À Sombra do Juazeiro, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2008. Buraco de Entulhos, Entre a Vida e o Tempo, À Sombra da Quixabeira, São Paulo, Editora Epitaciana, 2010.

Dois dedos de prosa

           

Este é mais um trabalho da jornalista Goretti Brandão. Campus/O Dia espera que ela nos ajude sempre a manter o sertão em nossas  páginas. Há neste seu texto, uma bela junção entre memória, cotidiano a expressão da sensibilidade sobre um vida e um lugar.


            Gortetti sempre nos trará as cores e os modos do sertão, andando por sua vida e pelo lugar, alinhando sua circunstância com os tempos vividos junto a seu povo.

            Campus/O Dia agradece e convida a todos a ver a vida feita sobre o terreno do encantamento com o tempo e a circunstância no espaço.
Vamos ler!

Parceira, muito obrigado!

Sávio

O rio de São Francisco e o seu Pão de Açúcar
Goretti Brandão.


Rua da Frente

Venho do litoral rumo ao sertão alagoano. Após uma comprida e demorada viagem, cheia de estradas de barro e solavancos e descendo uma longa ladeira que serpenteia a serra, avisto o Cristo Redentor sobre o Morro do Cavalete e as águas azuis do Rio São Francisco que o festejam. Na quentura das três horas da tarde, contemplo o mundo até onde meus olhos alcançam.

A rua principal é uma imensa linha reta, larga e plana e possui um corpo de onde outras linhas, perpendiculares e paralelas, enchem-na de braços e pernas e saem a distribuir casas e gentes. É a Avenida Bráulio Cavalcante, que se estende desde o Grupo Escolar que leva o mesmo nome, até a Cadeia Pública Municipal.

Veste-se majestosa com centenárias e frondosas árvores, que fazem sombra sobre os bancos de suas praças. É a Cidade Branca com sua alma sertaneja, cercada de xique-xiques e mandacarus. Cheguei. Estou à porta de casa. Eis-me aqui em minha pequena pátria, a Terra do Sol, Espelho da Lua, Pão de Açúcar. É assim que começo, abrindo o meu portal de memórias e deixando que elas criem asas.  

A morada da minha infância tem fachada com porta e grade, uma alta, maciça, a outra menor, detalhada e dividida em duas, com postigos e duas janelas. Retorno à visão da casa e nela adentro. Ando pelos seus quartos e salas, seu quintal, seu beco que acompanha em paralelo um corredor estreito, onde um tanque de cimento testemunha nossa vida em movimento.

Ela é grande, simples, iluminada, antiga e de muitos anos antes de mim. Tem cumeeira com telhado bem alto que declina abruptamente, e no corredor quase tocamos os seus caibros e ripas. Duas janelas e uma porta lateral com portais de madeira tosca dispostas neste vão emolduram avencas penduradas e no chão, vasos com antúrios viçosos estão sob o céu azul ensolarado, onde pequenas porções de luz brilham sobre as sombras das folhagens.

Brinquedo espalhado pelo chão, vozes, e eu seguindo a caminho da cozinha, que tem fogão à lenha cuspindo fuligem por todos os lados e realiza em si a alquimia dos nossos afetos. Minha mãe está de costas, voltada para ele e tem um abanador de palha em uma das mãos. Na outra um mexedor de brasas, que ela atiça e estrelinhas douradas saem voando de dentro do fogo.

Sento-me. A velha cadeira de balanço feita de bambus e cordas provoca-me desconforto, que só a saudade o torna, agora, desejável. Aqui, os mais variados aromas penetram em mim. Os doces, as comidas, as frutas e todas as presenças que transitam pela cozinha, tatuam-se nos meus sentidos através dos seus cheiros que os chamarei para mim mais tarde e eles ressuscitarão.

O tempo muda de uma hora para outra. Fecha-se. No inverno as sombras descem sobre esse mesmo lugar e as cores, cinzas, diversos tons enegrecidos e azuis desbotados, constroem um cenário melancólico. É neste canto aqui da casa que vivem o nosso papagaio e uma parreira ocupa-se em esparramar-se e enfeitar minha vista, com pequenos e novos cachos de uva.

Essa imagem dá-me a sensação de estar contida, estática, em memória fotográfica, que quando evocada, aparece da mesma forma e que por essa razão vence o tempo. A chuva vai se anunciando aos poucos. Primeiro a ventania que varre a poeira das telhas e em seguida o pó que cai sobre nossas cabeças.

Vai chover dona Demantina’. Raulina corre para o quintal e tira às pressas as roupas que secam no varal. Volta depressa pela porta dos fundos, derrubando algumas peças entre o quintal e o último aposento da casa. É março e um chover com trovoadas e relâmpagos enche a tarde de sons estrondosos. Tudo parece parar de repente. O barulho rítmico dos pingos d’água principia.

O cheiro de terra molhada invade meu olfato e expira através da minha respiração, uma espécie de magia que constela a presença de outros sentires dentro e fora de mim e algo me desperta para o desejo de que esse instante sobreviva ao tempo, acrescentando-se às páginas de todas as recordações do mundo, para que a beleza dessa vivência nunca se perca e que seja eterna.

Acompanho a música da água sobre o telhado. A mãe da minha mãe, uma grande contadora de estórias e histórias, anuncia que a abóboda celeste está sendo lavada. Descreve com riqueza de detalhes a cena lá em cima, onde Nossa Senhora, dona de casa, celestial, agora de carne e osso e que eu a imagino com lenço na cabeça, igualzinha à minha mãe e a todas as mulheres da vizinhança, determina com sua voz pura e suave, que a limpeza seja feita.

Aos montes os anjos trazem nas mãos suas vassouras, acendem e apagam luzes, arrastam os móveis divinos e despejam sobre a Terra as águas do céu. Os pingos engrossam e as goteiras aparecem. ‘Chega Raulina!’ grita diligente a minha avó, que some e volta às pressas com panelas velhas, baldes e bacias, espalhando-as pela casa quase toda.

Mãe e avó da autora
Nova estação. É um dia de segunda-feira, a claridade do sol chega à janela do meu quarto. Acordo ouvindo o homem que vende vassouras de palha gritando um pregão. Barulho de cascos de animais, rumor de carros de bois, de metal batendo um no outro, um cheiro forte de fumo e o burburinho da feira livre abrem as cortinas desde outro momento que descrevo.

Matutos em idas e vindas para lá e para cá, as duas anãzinhas que sentadas bem próximas uma da outra em seus banquinhos, dispõem à venda suas bonecas de pano em um grande balaio. O colorido de suas roupas me deixa maravilhada e se não é minha avó que me chama, não saio mais de onde estou.

Bêbados trôpegos saem dos botecos, atrapalham-se e à marcha dos transeuntes. Caminho por entre as barracas atravessando a avenida até chegar onde minhas quatro tias-avós, Amélia, Sinhá, Dora e Prazerinha, muito afetivas, vendem cocada, broa, sonho e modinha, sobre uma mesa improvisada com o encosto do banco da praça e algumas tábuas.

Atrapalho-me neste turbilhão de tantas lembranças que se evocam a si mesmas e perco ao tempo sua linearidade. Procuro buscar-me entre os anos como se em mim tivesse guardado pedacinhos de memórias escritas em rodapés de textos ou presas na parte superior das páginas deste caderno empoeirado, onde a vida já escreveu tantos capítulos.


Fecho os olhos e as lembranças inauguram outra cena. Acordamos muito cedo, eu e meu irmão, e estamos vestidos em pijamas de flanela, sentados no batente, e com a porta principal entreaberta. É uma manhãzinha fria de agosto e a rua está coberta por uma espessa neblina. Ficamos em silêncio mergulhados na opacidade que esconde de tudo os seus limites e formas, vendo vultos saírem de dentro dela, como fantasmas vindos do nada. 

De súbito consigo ter a noção materializada do mistério. Ficaremos assim, contidos entre a perplexidade e a fantasia, e estaremos calados vivenciando a sacralidade despejar-se sobre as coisas, até a névoa se dissipar e a avenida revelar-se novamente, longa e definida. Acode-me outra lembrança de um dia de domingo ensolarado.

Estamos em frente ao portão da casa dos meus avós paternos, meus pais, eu e meus irmãos. Do lado direito estende-se um jardim que vai até o quintal, e de lá avança até os pés de um morro cheio de pedregulhos. Duas goiabeiras frondosas, uma com frutos vermelhos e a outra brancos, uma pitangueira e talvez outras que me escapam à memória, ali brilham sob a luz da manhã.

Na sala um comprido banco de madeira está próximo à porta de entrada e compõe um simples e quase harmônico conjunto com o restante dos móveis. Há retratos antigos na parede. Do lado oposto, onde elas formam um vértice, uma rede liga os pontos e cria um ângulo reto. Minha avó tem nela o seu lugar preferido. Izaura Brandão, a mãe do meu pai, é franzina, com feições graves, cabelos grisalhos sempre presos por trás da nuca.

Em ser tão miúda, contrasta com a sua personalidade forte. É uma mulher de curtas, firmes e diretas palavras, que soam sempre como ordens. Ela costuma usar uma saia inteiriça e uma blusa leve. Sobre ela, um casaco vermelho de lã. O seu balançar é bem proporcionado.  Vai e vem, em um ritmo quase perfeito e que não sobra, senão bate-lhe a parede nas costas. A nossa visita é conveniente e sempre se faz breve.

Sobre o meu avô paterno. Todas as tardes ele vem nos visitar. Descansado, atravessa toda a extensão da avenida a passos lentos. Usa costumeiramente chapéu, bermuda e sandálias de couro.  Antes dele, Turco, o seu cão, anuncia-se entrando casa adentro, seguro e tranquilo - um território fora do seu, incorporado aos próprios domínios -, e vai deitar-se aos pés da cadeira onde ele costuma ficar. 

Vovô que tem preferência em estar entre as mulheres da casa, o que o faz muito à vontade, é sempre bem vindo. Sua conversa é descansada e cheia de pausas. Fala sempre sobre coisas passadas ou sobre aquelas as quais os anos tornaram-nas mornas. Sua antiga canoa rio acima, rio abaixo, o calor sufocante do verão, os tempos do plantio e da cultura do arroz ao longo das margens ribeirinhas.

O gosto do café quente. Reclama do suor que lhe desce à testa, e que o enxuga com um lenço que traz no bolso e sobre os parentes vivos e mortos, deles e da minha avó Izaura. Alonga-se nas histórias e conta-as com riqueza de detalhes, personagens, nomes e sobrenomes, sem errar nenhum deles ‘Lembra dona Fulana de Tal, dona Diamantina?’

‘Não estou bem lembrada, Seu Antônio Hilário’ Minha avó recorre à memória, passa a mão no rosto, inclina um pouco a cabeça, ergue a sobrancelha direita e espera. Ele quase se angustia. Ambos esperam. Se falha a lembrança, não há como a prosa andar. O silêncio estabelece-se. Ela, beirando a aflição, entorta a boca, fecha o punho e dá pancadas leves em uma das têmporas e depois cruza os braços bem abaixo dos seios.

E de súbito, lembra. A tensão se desfaz. Meu avô restabelece-se da expectativa e da possibilidade da sua narrativa esfiapar-se e a conversa entre eles prossegue animada, até que outro breve hiato aconteça. É assim todas às vezes. O maior de todos os meus amores e que me ensinou sobre muito do pouco que sei é minha avó materna, que acima contracena com o pai do meu pai.

Nesse momento, cálida e serena, ela está sentada à máquina de costura. É professora de música e por isso fica atenta quando qualquer um de nós aventura-se a cantar. Quando falta à gente, voz, para chegar ao final das melodias, ela antecipa-se e recomenda que façamos um falsete. Encostada à parede, Maria Emília, uma rapariga velha e aposentada do ofício.

No dizer dela, quer despejar em seus ouvidos, todas as novidades que colheu na rua. ‘Quero saber não, mulher. Estou correndo de coisas que me acrescentem mais pecados. Conte a outra. Isso é tentação do inimigo’ e ela desanimada, senta-se em uma das extremidades da mesa, deita a cabeça sobre um dos braços e aceita o café com pão, que a minha mãe vem trazer como consolo.

À memória da minha infância, ainda nela estou, aprendendo encantos para fazer a vida ser do jeito mesmo que será. Das minhas lembranças surge nítido o timbre vocal da minha avó, que sem enxergar direito, mobiliza todo mundo para procurar seus óculos que se esconderam dela e da gente, meninos, nus da cintura para cima.

Temos muitas brotoejas e as costas cobertas de uma mistura de goma e cachaça para aliviar as coceiras que elas provocam. Somos assistentes às agonias de minha mãe que se vexa por qualquer coisa e uma vez ficamos sabendo sobre o meu pai, que saiu a serviço e voltou acidentado, duma viagem inexplicável na companhia de amigos e uma meia dúzia de mulheres alegres.

E que como era previsível, a minha mãe ficou sabendo, entristeceu-se e encheu-se de lágrimas. Outra vez, uma festa de Ano Novo, cuja alegria foi interrompida com a notícia do suicídio do meu primo Zezinho. Eu não entendia como aquilo veio comprometer a beleza do meu vestido de cassa azul com gola branca, incompleto, sem o belo laço vermelho. Minha mãe, brusca, o arrancou sem nenhuma justificativa. Que tem ele a ver com a morte?

Passa-se algum tempo. Estou viajando no banco de trás de um automóvel que faz a curva estrada de barro afora. Em meio à secura da vegetação, o clima hostil, olho dois meninos barrigudos sentados no chão, e que à minha passagem, também me olham. Parecem dois anjos sujos e sem asas, protegendo um cachorro vira-lata, que se passa por protetor deles.

A visão traz-se à memória outra memória, anterior, de uma espetacular paisagem, onde há na imensidão da terra nua e ocre, a única árvore florida. Toda amarelinha, sem uma folha sequer. Só flores. Uma craibeira. A sua beleza entra pelos meus olhos e deixa a minha alma agitada de tanto amarelo. Meu coração enche-se de água e derrama-se pelos olhos.

Emoção em ver meninos, cachorro e aquele amarelão, todos misturados. É um sertão que sei de cor. Outro dia que já amanhece dado às surpresas. Jipes e Pick-ups verdes chegam a Pão de Açúcar e distribuem, ao longo das praças, soldados do Exército em Campanha Para a Erradicação da Varíola Estamos não sei ao certo, em 1967.

Todos serão vacinados. Um dia medonho às crianças. Uns se escondem, enquanto outros choram. Estou com sete anos e tenho medo. Choromingo. Dou sinais de que cairei no berreiro. A minha mãe segura firme a minha mão e explica ‘não dói. Será como picada de formiga’. Confio nela e entrego o braço ao soldado.

É por essa época que passam em frente à minha casa, cortejos fúnebres de crianças vindas de uma desses locais esquecidos, chamados de pontas de rua. Corremos a vê-los. Mortas, as criancinhas parecem enceradas, pintadas de azul, de olhinhos fechados, mãozinhas cruzadas sobre o peito. Tudo indo ser anjo no céu.

É o que me diz a minha avó, para alívio à minha tristeza. A vida me aturde mudando apressada os cenários e um carro de boi passa com rodas que rangem cheio de moringas e esteiras. Os bois vão-se aguentando, um encostado no outro. Mas, aquela história da minha mãe sobre que agulhada de vacina, era igual à picada de formiga, é tudo mentira.

É como saudade. Ainda hoje quando lembro ela dói. É tempo de quaresma. Em casa entramos em clima de seriedade e somos chamados à contrição e às orações. Voltamo-nos à penitência. Um ar quase sombrio, exalando sacralidade paira sobre nós. Mergulhamos na prática católica exigida. Tenho a estranha sensação de estar sendo vasculhada.

Tendo que tomar uma espécie de óleo de rícino santo ou algo especial para purificação da alma. Chega a Semana Santa. A música é banida e o silêncio é pontuado pelos gestos comedidos e a expressão grave com a qual somos policiados. Minha avó nos observa pelo canto do olho. Às vezes algum de nós esquece-se da tristeza imposta e diz ou faz algo engraçado.

O riso é reprovado Voltamos todos à representação da tristeza. Somos oito irmãos e dentre eles, os maiores, mesmo crianças estamos comprometidos com os sofrimentos do Cristo, submetidos em uma espécie de vigília à dor sagrada, vivendo mesmo sem qualquer jeito, o luto santo e querendo sofrer, o mistério, sem sabermos como vivê-lo.

Agora mesmo o lugar onde me acomodo chama-se mãe. Nele a presença forte dela invade todos os espaços de quem sou, cantando cantigas de notas tristes, depois alegres, que se intercalam e abastecem-na quando retraída. Alguma vez destempera-se reclamando de tudo ao mesmo tempo, às vezes cheia de mágoas.

Outras vezes por coisas tolas, explode em sonoras gargalhadas de intensidades variadas, que repercutem no humor da casa. Suas disposições emocionais trafegam ondulantes entre dois opostos em frações de minutos. Ela é alva, de aparência agradável e de boa estatura. Tem cabelos curtos, veste-se com discreta elegância, embora não ostente vaidades.

Vejo-a bonita, fisionomia cotidiana, de uma beleza comum que se confunde entre outras sem destaques. É amante da leitura, bem educada, sensível e ocasionalmente suave... Minha mãe tem atitudes infantis algumas vezes, e agora eu a entendo melhor. Dona de uma constante ansiedade, não admite que opinião nenhuma seja diferente da sua, portando-se como a palmatória do mundo.

Quando contrariada irrita-se com facilidade e perde toda suavidade. Vive colhendo dos livros, as estórias todas de amor e entre um capítulo e outro, deixa-se estar por um tempo com os olhos entre tristonhos e perdidos. Consterna-se, fica meio desiludida e encosta-se à poltrona, imaginando com certeza, que a sua vida está distante de incorporar elementos que configurem os romances lidos.

Suspira. Lê mais algumas páginas, abandona o livro sobre o colo e volta a suspirar. Eu a observo com certa angústia, sentada no chão de cimento frio, enquanto decoro a tabuada. Em outras ocasiões é dada a pieguices, dramatizando situações vistas por onde anda o que me arranca tanta lágrima e soluços, que ela acaba se aborrecendo comigo.

Meu pai é um homem taciturno, de pouquíssimas palavras e de olhos graves. Tem a testa vasta, cabelos sedosos, dentes alvos e um sorriso que até agora não sei definir, pois nem sempre é de satisfação ou aprovação, o que para descobrir é preciso se arriscar muito. Com enorme talento para o desenho, retrata de memória, belas canoas que margeiam as areias do rio.

O que faz cuidando em retratar-lhes toda a beleza nos mínimos detalhes e de maneira realista. Também desenha cavalos maravilhosos. Às vezes me coloca no colo, me beija no rosto e anda de mãos dadas comigo, quando vamos buscar mamãe no trabalho dela. Mas esconde-se sempre no silêncio durante todo o trajeto.

Boêmio, amigo das farras quase intermináveis, ele canta divinamente bem e faz-me de vez em quando, ler em voz alta, para que ele e eu escutemos a poesia de Catulo da Paixão Cearense. Entre um verso e outro, levanta sereno uma das mãos. Faço uma pausa. Ele quer saber de mim o que entendi e quase ordena ‘ Minha filha, sinta a beleza do que ler’.

Descanso temores nas cantigas que ambulantes circulam pela casa. Inauguro todas as novas certezas, ciente de que, as boas lembranças são como um antídoto às coisas ruins. A felicidade instala-se, soberana e mágica. Contamina o ontem e o agora, solicitando da simplicidade, a razão da vida lá no futuro, onde me encontro. Tudo é simbólico e profundo. Recolho à memória o que me sustém e ao meu próprio universo de saudades, incandescentes como as estrelas.