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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Macacos me mordam: o belo saguim

Estas fotografias são da autoria da jornalista e amiga  Olívia de Cássia Correia de Cerqueira que me permitiu fazer intervenções nelas.

Sempre fui ligado a saguim e jamais negaria que somos primos. Tudo se marca em minha infância na Rua da Penha em Penedo. Criei dois. Um se chamava Chico e outro era o Seu Nome. Eu fica buzina da vida quando perguntavam o nome do Chico; o outro já fui chamando de Seu Nome.  Ambos viraram pessoas da família, convivia conosco e, sem estarem presos, jamais fugiram ou foram embora. Passavam muitos por lá.












Chico morreu de morte morrida, era um filhotinho que andava perdido no quintal. Minha mãe teve pena, recolheu e me deu para tomar conta. Ele dormia em meu quarto, dentro de um cestinho cheio de panos para ele se aconchegar. Acho que foi atacado por um guabiru. E cuidei mesmo dele.











Seu Nome morreu afogado. Era criado completamente solto; nenhum, dos dois tinha restrição de movimento. Naquele tempo, Penedo não tinha água encanada, a gente comprava as ancoretas, carregadas no lombo de jegue. Mas dava às vezes para juntar  e sempre se manteve dois tonéis lá em casa. É daí que vem o trágico: segundo minha mçae dizia, ele olhou, viu seu reflexo na água e pulou.

Eles estão enterrados na velha casa da Rua da Penha. Coloquei numa caixa de sapato, cavei a cova, enterrei com missa e tudo.

Jamais os esqueci.
Sei que um nçao pode ser igual ao outro. Como poderiam conviver?

Hoje, estão urbanos, vivendo nas poucas árvores que sobram, pela cidade.



Será que faço uma péssima etnozoologia ou uma bela recordação?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Educação e povo: legado de Élcio Verçosa


Dois dedos de prosa

Esta é uma homenagem realizada por Campus, a um dos mais importantes intelectuais alagoanos: Professor Dr. Élcio Verçosa.  Dois de seus amigos e companheiros de trabalho, abordam sua vida.
Minha admiração é e sempre foi grande. Campus/O Dia tem a chance de homenagear a uma grande figura humana e a um grande cidadão brasileiro e, eu, este  mirrado escriba, tem a possibilidade de mais uma vez declarar sua amizade e admiração por ele. Agradecemos a todos os que colaboraram neste número, especialmente à Albinha e Graça.
            Vamos ler
            Um abraço
            Sávio



I – Um pouco sobre um amigo
Luiz Sávio de Almeida




Este número de Campus/O Dia presta uma singela homenagem ao Professor Élcio Verçosa, cuja trajetória é conhecida em Alagoas, especialmente no campo educacional onde viveu densamente. Os chamados grandes homens são assim: a vida se infiltra em cada minuto do cotidiano, de tal modo que ele sai reproduzindo-se, anonimamente, em uma infinidade de outras vidas. É o que acontece com Élcio e ninguém pode dizer onde ele termina e onde começa.
A qualquer desavisado, pode parecer que estamos a  cometer um exagero, mas não é.  Estamos diante de um tipo de intelectual público, capaz de estar e discutir a vida do seu povo, de uma forma aberta e forte. Não se tem a menor discussão sobre a educação em Alagoas, sem que direta ou indiretamente, as suas ideias estejam presentes, sobretudo através dos seus alunos, por ele ensinados a tentarem uma educação que seja, também, uma luta pelo que se convencionou chamar de justiça social.  A relação entre construir a educação e a sociedade, sempre esteve clara em sua cidadania que se repartia em diversos setores,  desde a sala de aula às lutas sindicais.

II - Biografia e Trajetória de Elcio de Gusmão Verçosa
Ivanilda Verçosa

Professor Emérito da Universidade Federal de Alagoas por indicação unânime de seus pares do CEDU, título do qual muito se orgulha e que foi outorgado pelo Conselho Universitário da UFAL, Elcio de Gusmão Verçosa nasceu em Porto Calvo, em 14 de outubro de 1944. Fez seus estudos primários no grupo Escolar Rocha Pita, ainda em Porto Calvo, após ser alfabetizado por uma prima e madrinha – Maria Helena Buarque Ferreira. Filho de Benedito Aires de Verçosa e Dina de Gusmão Verçosa, é o quinto de dez filhos.
Em 1957 entrou para o Seminário Menor da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, em Pernambuco, onde cursou o ensino fundamental (antigo ginasial) e o ensino médio (antigo colegial). Após o noviciado, fez o Curso completo de Filosofia. Em 1967, deixa a Congregação e volta a Maceió, onde faz o vestibular para Letras – Português-Inglês, concluindo em 1970.
                     Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFAL foi presidente do Diretório do Curso de Letras, durante o período de chumbo da ditadura militar 1968-1969 onde enfrentou lutas históricas contra o CCC - Comando de Caça aos Comunistas, grupelho liderado pela família de Wanilo Galvão, famoso integralista de Alagoas.
Em 1968 participou das manifestações estudantis contra a ditadura, pelas liberdades democráticas e em 1969 engajou-se na luta contra o AI-5. Nesse período, participou ativamente como ator, do Grupo teatral “Os Corujas”, da Faculdade de Filosofia, dirigido por Sabino Romariz. Fez parte do corpo de atores das peças “Revolução dos Beatos” e “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes e de “Mortos Sem Sepultura” de Jean-Paul Sartre. Era a fase da resistência por meio da arte teatral, já que o AI-5 proibira as manifestações de rua.
Em 1970 termina o Curso de Letras – Bacharelado e Licenciatura – e se casa com a companheira de magistério e de movimento estudantil, Ivanilda Marques Soares, que passou a se chamar Ivanilda Soares de Gusmão Verçosa e desse casamento nasceram dois filhos: Elcio Verçosa Filho e Catarina Verçosa, mãe de Diógenes Verçosa Domecq,  único neto.
A partir de 1970, quando o regime militar endureceu as perseguições aos democratas revolucionários, passou a acolher em sua casa, como outros democratas e progressistas, guerrilheiros que fugiam da repressão, vindos do Araguaia para São Paulo. Até hoje somos amigos de alguns que sobreviveram aos tempos de chumbo.
Professor de Língua e Literatura Portuguesa e Língua Inglesa em colégios do setor privado como Marista de Maceió e Imaculada Conceição, foi selecionado para lecionar Português na rede estadual de ensino em 1968. Em 1975, foi aprovado em concurso público para a então Escola Técnica Federal de Alagoas – ETFAL, passando a lecionar Língua Portuguesa e Literatura Brasileira até 1980, quando foi selecionado como Professor substituto para o CCSA – Centro de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas. A partir daí começou a construir sua carreira acadêmica e sindical no ensino superior, desligando-se da ETFAL ao ser aprovado na seleção de Mestrado da Faculdade de Educação da UFPe e, em 1984, tornou-se Professor Auxiliar da UFAL, aprovado em concurso público.
No final da década de 1980, liderou o movimento, junto com outros companheiros docentes, para a criação do Centro de Educação – CEDU, que se tornou referência na UFAL e no Estado de Alagoas na formação de dezenas e centenas de educadores, pedagogos com uma visão humanista e social da Educação. Foi seu primeiro Diretor eleito pelo voto de docentes, estudantes e funcionários, como também Professor de disciplinas como Métodos e Técnicas de Ensino, Planejamento e Política Educacional. Elcio escreveu sobre a criação do CEDU: Depois de conseguir se reorganizar de fato, nos meados dos anos 80, após árdua batalha política, em três departamentos, será no fim dessa década que o TFE, o MTE e o APE, desprendendo-se do CCSA, criarão o CEDU, resultante de um projeto nascido do empenho e do ideal dos que queriam que a educação, no seio da UFAL,  continuasse sendo um espaço de formação cada vez mais comprometido com a nova realidade educacional alagoana, através de uma atuação crítica, investigativa, politicamente competente, capaz de manter interlocução com a sociedade e seus dirigentes, e cada vez mais ávida por transpor os muros que frequentemente encastelam a Universidade e tendem a fazê-la alienada do seu tempo e de sua realidade. Por isso, assumimos, desde a primeira hora em que fomos instituídos, como prioridade absoluta, a Educação Pública, e perseguimos, como meta central, a qualificação de nossos quadros.”
Mais tarde, já nos anos 1990, após concluir o Doutorado em Política Educacional na FEUSP – Faculdade de Educação da USP, também liderou a criação dos Cursos de Pós-Graduação – Mestrado e Doutorado no CEDU/UFAL – ao tempo em que dava aulas na graduação, orientava dissertações de alunos do Mestrado e Doutorado e dirigia o CEDU.
TÍTULOS: pelos relevantes serviços prestados à Educação de Alagoas, recebeu vários Títulos honoríficos: em 2004, foi agraciado com o Título de Cidadão de Maceió, outorgado pela Câmara de Vereadores de Maceió; em 2006, recebeu o título de Professor Emérito da Universidade Federal de Alagoas, outorgado pelo Conselho Universitário – CONSUNI; em 2007, a Comenda do Mérito Educativo, outorgada pelo Conselho Estadual de Educação de Alagoas, do qual foi Presidente sempre eleito por seus pares; em 2013 recebeu a Comenda Padre Teófanes Augusto de Araújo Barros, outorgada pela Assembleia Legislativa de Alagoas, também pelos relevantes serviços prestados à Educação em terras alagoanas. Autor de vários livros sobre História da Educação em Alagoas, sobre Cultura e Educação, Educação Superior, sozinho ou em parceria, participou de diversas Bienais do Livro em Alagoas, sempre com lançamentos de novos livros ou novas edições dos já esgotados.
Resumindo sua trajetória, é Avaliador de Cursos Superiores, Faculdades e Universidades pelo INEP/MEC desde o ano de 2000. Com vastíssima experiência no Ensino Médio e Superior de Alagoas, aposentou-se da UFAL em 2006, tendo sido convidado para ser Professor Visitante da UNEAL – Universidade Estadual de Alagoas que ajudou a criar quando Presidente do Conselho Estadual de Educação. A função de Professor Visitante exerceu até 2010, quando foi convidado pela Direção da Faculdade SEUNE e aceitou ser Coordenador Acadêmico e docente dessa Faculdade, onde se encontra atualmente.

III - O SINDICATO NA RELAÇÃO EDUCAÇÃO E SOCIEDADE
Profª Alba Correia                                           

APAL-SINTEAL, CPB-CNTE, ADUFAL.


       
    Escrever sobre Elcio Verçosa no espaço de um artigo é tarefa complexa por alcançar diversas dimensões de sua intervenção na sociedade como educador, sindicalista, gestor, intelectual de significativa produção acadêmico-científica.
Com foco no sindicalismo e apoio de testemunhos na luta, este registro perpassa a capacidade do educador em promover interações entre pessoas, projetos, instituições. Ele mesmo, formulador de concepções e proposições em favor da educação entre os direitos humanos fundamentais, defende o conhecimento da realidade como norteador do compromisso com o mundo social, político e cultural na perspectiva das transformações sociais.
Contextualizada, sua história de vida traz a década de 60 (Século XX), quando o Brasil e o mundo enfrentavam grandes transformações na realidade econômica, sociopolítica e no campo dos paradigmas e valores.
Nesse período, a Igreja Católica, vivenciando o Concílio Vaticano II (1962-65), por nova ênfase à paz, ao desenvolvimento e à justiça social, busca um novo pensar e agir na realidade. São posições com reforço na América Latina (1969) – cenário de regimes ditatoriais de ação repressora – que impulsionam a Igreja a redefinir seu perfil, articulando-se a segmentos políticos e sociais do campo progressista, com protagonismo mais consequente em favor da justiça e da liberdade.
No Brasil, o golpe militar de 1964 rompe os anseios do país em torno do Governo João Goulart, impede a perspectiva de um modelo nacional de desenvolvimento, exercendo brutal repressão sobre democratas e patriotas. Por suas contradições, esse contexto fomenta a politização e mobilização dos movimentos sociais, organizações partidárias, unificando propostas de luta ligadas à liberdade, direitos humanos, justiça social, pela redemocratização do país.
Ao acirramento da repressão, a resistência democrática assumia as bandeiras das eleições diretas, da anistia para presos políticos, mortos e desaparecidos, da Assembléia Nacional Constituinte, articuladas a pautas específicas ligadas aos direitos sociais e trabalhistas.
Assim se apresenta o ideário e a base de formação de Elcio Verçosa, desde seu ingresso na Ufal (1967), integrando o conjunto das lideranças estudantis de Alagoas contra o arbítrio, em defesa da educação pública, construindo a prática democrática na escola e na sociedade. 
Presidente do Centro Acadêmico do Instituto de Letras e Artes – Ila/ Ufal (1968-69) participa do período efervescente de lutas do movimento estudantil contra o regime militar, enfrentando os efeitos do AI 5/1968, do Decreto 477/1969 e do Acordo Mec/Usaid. Formado em Letras pela Ufal (1967-70), é admitido no Serviço Público Estadual, como professor e gestor da escola pública (1967-83), período marcado pela falta de atendimento às principais diretrizes básicas para a educação: a elevação dos níveis de escolaridade e a formação dos estudantes segundo as demandas de sua realidade.
Na vida profissional, o movimento sindical integra seu novo campo de ação política. Na Associação de Professores de Alagoas/Apal marcada, desde sua criação (1965), pelo atrelamento ao governo do Estado, Elcio Verçosa projeta-se liderança do Movimento de Professores (Décadas 70-80), impulsionando a participação da categoria na defesa da escola pública de qualidade e da valorização profissional.
A organização dos professores também acompanhava a luta pela transformação da Confederação dos Professores do Brasil/CPB, conduzindo Elcio Verçosa e outros/as companheiros/as à participação de articulações e eventos nacionais, por novas proposições para a educação e a sociedade brasileira.
Nesse caminho, em 1980, as eleições para a direção da Apal encontram uma oposição organizada com significativas lideranças da capital e do interior, compondo-se a Chapa APAL PARA O PROFESSOR encabeçada por Elcio Verçosa. Mas, no enfrentamento ao autoritarismo de governadores indicados pelo regime militar, a organização dos professores, embora expressiva, não conseguiu barrar a ação repressora que manteve a política de atrelamento da Apal.
O movimento resiste e cresce, aproximando bandeiras específicas à luta da sociedade brasileira pelas liberdades democráticas e os direitos dos trabalhadores, para alcançar seus objetivos em curto espaço de tempo.
Elcio Verçosa vai buscando sua qualificação profissional e, aprovado em concurso público, ingressa na Ufal em 1980 como professor. Um novo campo de atuação sindical vai encontrar na Associação dos Docentes da Ufal/Adufal, fundada em 1979, ano da conquista da anistia para os brasileiros. Élcio é eleito Presidente, na Chapa NOVADUFAL para o biênio 1985-87.
Em sua nova tarefa, empenha-se no fortalecimento do debate político sobre a missão da Ufal – criar, manter e compartilhar o conhecimento e a cultura da sociedade em função de seu desenvolvimento – e na consolidação da gestão democrática, concretizada em 1989; intensifica a mobilização pela valorização dos professores, conduzindo a greve de 1987 com pauta nacional unificada e, no plano interno, a melhoria da estrutura e funcionamento da entidade.
A trajetória de Elcio Verçosa revela sua capacidade de, refletindo sobre a dinâmica conjuntural na articulação de concepções e ações, potencializar sua intervenção na sociedade, sempre atento à formação de cidadãos conscientes e comprometidos com a educação, na perspectiva das transformações sociais.

IV – Élcio Verçosa: tempo e vida
Graça Tavares


“      Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante” (AUGUSTO BRANCO, poema VIDA)

Essa frase diz muito do que penso e sinto sobre Élcio de Gusmão Verçosa.
Convivi com Élcio em várias etapas de minha vida acadêmica e social, inclusive como sua vice-diretora no Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas, e posso afirmar que determinação, paixão e ousadia sempre foram as diretrizes que nortearam suas ações enquanto gestor/líder e ser humano.
A literatura da área de administração afirma que dentre outras tantas coisas que caracterizam um gestor destacam-se o gostar e entender de gente. Isso mesmo, da figura humana. Métodos e processos bem elaborados são de fundamental importância para uma boa gestão, mas sempre haverá uma pessoa para torná-los eficazes.
Segundo Peter Drucker, pai da administração moderna, administrar é fazer as coisas direito, utilizando a autoridade inerente da hierarquia formal para obter o cumprimento dos membros organizacionais e liderar é fazer as coisas certas através da habilidade de influenciar um grupo para se alcançar objetivos. Élcio, você soube, como ninguém, exercer a função do gestor e líder no Centro de Educação da UFAL para alcançar os objetivos propostos que se efetivavam na defesa da educação pública, gratuita e de qualidade social; no compartilhamento das informações com todos os envolvidos na elaboração e construção dos projetos que sempre visaram à melhoria dos cenários educacionais: alagoano e brasileiro.
Acredito que o determinante para o sucesso das pessoas nos locais de trabalho são a dedicação e eficiência com que conduzem suas atividades profissionais e a honestidade que empregam na realização de suas tarefas. Élcio, a determinação e ousadia na forma como se colocou enquanto gestor mediador de um projeto educacional, na Universidade Federal de Alagoas, cujo lema foi OUSAR PARA AVANÇAR, que, dentre outras conquistas, possibilitou as condições concretas para a criação do Programa de Pós-Graduação em Educação, o que veio a se concretizar em 2001; a reestruturação dos espaços pedagógicos e de melhoria das condições de trabalho no Centro de Educação; a formulação de novas formas de parcerias com a sociedade alagoana e na democratização dos processos coletivos de tomada de decisão na universidade, são exemplos de sua gestão e liderança.
Sim, Élcio, sua energia, entusiasmo e atitude positiva diante dos embates sobre a política educacional brasileira e alagoana colocaram o Centro de Educação em lugar de destaque no cenário universitário e nos vários espaços sociais onde o CEDU era convidado a participar. A concepção de gestão universitária, voltada para a transformação social, que implica um repensar sobre novas formas e concepções de trabalho docente, em sua visão mais ampla, enquanto pesquisador, gestor e professor possibilitou a produção de artigos e livros coletivos que socializavam as nossas reflexões sobre o fazer pedagógico cotidiano e seus impactos na política educacional.
Mais uma característica que quero ressaltar aqui é sua capacidade de mediar conflitos. Como você possibilitava a construção de uma percepção hegemônica, entre todos que participavam de seu convívio, sobre a finalidade do ato de administrar ao destacar que, tanto os princípios quanto a função da gestão estão diretamente relacionados aos fins e à natureza da organização em uma dada realidade social, nesse caso, a educacional, possibilitando que todos se sentissem contemplados nas metas então estipuladas e com isso conseguindo a adesão para a concretização das mesmas.
Como poucos você soube perceber que “a vida é mutirão de todos, por todos mexida e temperada” como afirma Guimarães Rosa em seu livro Grandes Sertões: Veredas e o seu fazer político-administrativo na UFAL foi um fazer pedagógico, pois se desenvolveu no ato de ensinar, no planejamento, na gestão, nas relações com a comunidade acadêmica e educacional fora e dentro da universidade. Esse é o legado deixado para todos nós que tivemos a ventura e aventura de fazer parte de sua equipe e de sua história de vida. Obrigada por tudo!


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Aspectos ecologicos na etnoictiologia dos pescadores do complexo estuarino-lagunar Mandau-Manguaba, Alagoas

Marques, José Geraldo Wanderley

Aspectos ecologicos na etnoictiologia dos pescadores do complexo estuarino-lagunar Mandau-Manguaba, Alagoas

Resumo: De acordo com os objetivos gerais propostos, conclui-se que os pescadores de CELMM possuem um conhecimento etnoecológico detalhado, coerente e compatível com a ciência ocidental. Tal conhecimento estrutura-se memicamente e constitui-se em importante recurso local, atualmente ameaçado de extinção. Ele é suficiente para capacitar os seus portadores a tomarem decisões racionais e socialmente aceitáveis quanto à exploração da pesca. Do ponto de vista teórico, os resultados encontrados reforçam as abordagens que vêm a pesca como um sistema presa-predador culturalmente mediado. Eles evidenciam, outrossim, que em um sistema, os predadores/pescadores desenvolvem teorizações a respeito das suas presas/peixes e comportam-se conforme. Os resultados obtidos cotejados com resultados da literatura apontam na direção da existência de universais cognitivo/comportamentais em comunidades pesqueiras. Os princípios hierarquizantes e nomenclaturais de Berlin saem particularmente reforçados, bem como a hipótese de restrição situacional de Burgess e Woolmington. Do ponto de vista prático, conclui-se que a integração das duas formas de conhecimento (a ¿cientifica¿ e a ¿folk¿) constitui-se em oportunidade de catálise e sinergismo para a compreensão do fenômeno com ele é. De acordo com os objetivos específicos propostos, os resultados obtidos através das investigações (e a discussão deles) permitiram que se chegasse às conclusões expostas a seguir, as quais estão relacionadas com: (a) taxonomia; (b) dimensões têmporo-espaciais e (c) ecologia trófica


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Anemia falciforme: história em Alagoas

O negro em Alagoas: história e doença falciforme

Rosana Brandão Vilela e Luiz Sávio de Almeida

Uma pequena introdução

            Desde 1995, o Programa Falciforme (UFAL) se desenvolve em Alagoas e vem exigindo uma avaliação de sua sistemática de trabalho e da produção científica que promove, operando, a avaliação, em pelo menos cinco eixos essenciais: o da excelência, o da implicação social dos resultados das pesquisas, o que diz respeito à vida acadêmica, o que se refere à implicação nas políticas públicas e, finalmente,  o do nível de organização da sociedade civil através da militância de familiares e de pessoas portadoras da doença.
            Essa avaliação está sendo programada e requer uma reflexão sobre a rede social da doença, as suas articulações com o conjunto da sociedade, economia e política. Estamos diante da  ligação entre o processo histórico falciforme  e o  contexto onde  a doença se localiza.  A introdução da expressão processo histórico falciforme implica considerar que não se fala da doença apenas como ente biológico, mas como elemento do próprio processo histórico.
Este nosso artigo é pensado no âmbito da avaliação que deve acontecer, mas seu objetivo essencial é destacar a relação entre o processo falciforme e o cotidiano, e nos louvaremos, sobretudo, no que foi produzido no âmbito do Programa Falciforme (UFAL). O nosso caminho será o de ressaltar os dados obtidos no contexto epidemiológico, tanto sobre o social como sobre o genético, devendo, contudo, ser considerado, com ênfase,  que entendemos o processo  como político, tanto por se tratar da baixa renda, como por se tratar do negro. O que é chamado de doença jamais poderia escapar do jogo do poder.

Da anemia à doença falciforme

Evidentemente, desde muito, a doença falciforme, por conta do escravismo, ampliou seu território, vindo da África para - no caso – o  Brasil em geral e Alagoas em particular.  Este é um movimento que seguramente vem do século XVI e se intensificou ao longo do tráfico de escravos. O processo histórico fez a nossa doença falciforme; ela, apesar de manter uma raiz africana no tempo, é detalhe de outro local e circunstância, nos quais existe e interage: o cotidiano de Alagoas. Desde logo fica claro que é uma imprudência pensar em falciforme abstraindo o contexto alagoano, significando dizer que se tem toda uma estrutura local inerente ao modo e forma do processo ou do andamento do falciforme no tempo das relações comunitárias.
Peter Fry (2005) quando escreve sobre as relações entre falciforme e corpo, apresenta, com base em Melburner Tapper, que se desenvolveram quatro discursos principais sobre a anemia falciforme: o da biologia molecular, o da medicina clínica, da antropologia biológica e, finalmente, o da genética, no qual, segundo enfatiza, prevalece a lógica mendeliana.
Na verdade, são vertentes que, cada uma a seu modo, falam obrigatoriamente da organização política inerente a este processo falciforme, mesmo que não fique evidente nos textos. É um processo em que se realça o poder, inclusive, pelo fato de ter impulso na consistência que assume o movimento negro e na paulatina inclusão da doença falciforme na luta pela afirmação negra.
A partir de 1990, a doença falciforme vai se tornando matéria de preocupação política negra, colocada gradativamente no centro das reivindicações dos setores engajados na questão e formados na sociedade civil, atingindo o Estado, inclusive,  no sentido da pressão por políticas públicas. A patologia passa a assumir, então, um papel essencial no corpo das reivindicações do movimento e perde a carga negativa de mera doença, apontando para os ganhos necessários em saúde, transformando-se, portanto, em matéria de reivindição. Desse modo, o falciforme, bem mais do que uma doença, transforma-se em enunciado nas reivindicações que circulam em torno do vasto espectro do que pode ser chamado de elementos da luta pela reconstrução do papel do negro na sociedade brasileira. A afirmação política do falciforme abrange em torno de 20 anos de política brasileira.  E, no caso, estamos a um século da descrição da doença nos Estados Unidos em 1910.
Há, portanto, uma marcha nacional brasileira da incorporação da doença falciforme como doença nossa e ela acontece na medida em que se coloca o negro como evidência; ele na correlação nacional de forças.  Não fosse assim, ficaria tão excluída quanto se procurava fazer crer que o próprio negro estava. Note-se que o aconselhamento genético no Brasil vem da década de 50, conforme se pode ler em Diniz e Guedes (2003).  Ocorre uma ligação intrínseca entre movimento negro e geração de uma perspectiva pública para a doença falciforme, como se pode ver discutido em diversos textos e com diversos enfoques,  como o repasse realizado  por  Macedo:

Ao longo da dissertação busquei demonstrar que a década de 1990 inaugura uma série de políticas como resposta a demandas do movimento negro no que tange à denominada saúde da população negra. O caso da doença falciforme foi destacado enquanto política específica dentre as inúmeras propostas de políticas de recorte racial. De acordo com Fry (2005, p.276), a emergência da doença falciforme no contexto da “saúde da população negra” representa que a doença, mais do que uma condição biológica do indivíduo portador, atua como um elemento importante na formação de uma identidade racial. (2006, p.71)
            Há necessidade de se estabelecer uma distinção. Ao longo do tempo, houve forma diferenciada de trato político e clínico do que seria entendido como falciforme.  Falava-se enfaticamente de anemia e com isto restringia-se o universo do que poderia ser diagnosticado e reivindicado. Foi então dada a amplitude que se estabelece na expressão doença falciforme, basicamente no final da década de 90. O termo doença falciforme, hoje, se restringe ao gen βs em homozigoze (SS), enquanto que doença falciforme abrange a anemia e também a associação do gen βs com outras hemoglobinopatias.
 Nota-se que os discursos genéticos não isolam, mas embasam condições políticas, da mesma forma, por exemplo, que trazem os haplótipos quando se trata da biologia molecular. Estamos diante também de interferências na medicina clínica, na dita antropologia biológica e na integração da lógica mendeliana, dando-nos a entender que um elemento do universo político consolida o processo falciforme: a noção de poder perpassada pela de movimento em reivindicação e que, como hipótese, poderia ser explorada dentro da questão étnica e não categoricamente racial.
            Os ganhos em reivindicação política foram paulatinamente reforçados pelos ganhos no conhecimento científico, de tal forma que no processo histórico falciforme foi sendo dada maior abrangência de pressão sobre as linhas públicas de saúde, a partir de posições da sociedade civil organizada em movimento. Desse modo, pode ser observado que ganhos na ciência tiveram condições de ser ganhos políticos, o que não aconteceria sem a vigilância do movimento, mesmo que não tenha sido formal e, sem dúvida, ela pressionou pela resposta do Estado.
 Este pode ser considerado como um raro momento, em que o movimento popular apropria-se do conhecimento científico e o toma para as pautas imediatas de reivindicações. Por outro lado, deve ser considerado que não é matéria, grosso modo, de prioridade para o que poderíamos chamar de elite, ao contrário de outras patologias menos frequentes e que detêm verbas orçamentárias bem superiores às destinadas à doença falciforme. O jornalista Biancarelli (2003) escreve na Folha de S. Paulo, em seu artigo Pacientes organizados têm mais benefícios:
Viver ou morrer depende não só da doença que se tem, mas também do lobby que se organiza em torno dela. O nível de gravidade e letalidade das patologias costuma depender igualmente do grau de organização de seus pacientes e familiares... Às vezes este critério chega a ser mais cruel e discriminatório do que a própria doença.
Em grande parte, da pressão do movimento popular resultaram três importantes portarias ministeriais. A primeira instituiu, em 1996, o Programa de Anemia Falciforme (PAF); a segunda (2001) determinou a realização da triagem neonatal e a terceira (2005), o atendimento integral ao paciente falciforme. Nota-se, sem dúvida, um avanço em direção ao trato do falciforme e ele ocorre em torno de dez anos mínimos de pressão, embora o primeiro momento organizado de reivindicação do movimento negro sobre a doença falciforme leve-nos à década de setenta do século passado, conforme Jesus et al. (2008)  No marco inicial existe uma tomada de consciência da questão da associação genética e da afinidade política entre negro e falciforme, fundada na anemia que se transforma em símbolo de uma condição de saúde tipicamente negra e que pode ser estendida para a discussão de etnia.
            Há um avanço no diagnóstico da presença falciforme na população, com a triagem neonatal que, imediatamente, aponta para demanda por serviços de saúde especializados. Amplia-se qualitativa e quantitativamente o trato do falciforme pela abrangência sobre as hemoglobinopatias e criação de um mecanismo de informe público e de identificação de portadores do gen βs ao nascer. Devemos considerar que essa é uma inovação fundamental, pois o sistema, responsabilizando-se pela identificação em massa neonatal, seria obrigado a aceitar o conjunto falciforme como responsabilidade pública.

Doença, cultura e cotidiano

Basicamente, a fisiopatologia da doença falciforme consiste na substituição de uma base no códon 6 do gene da globina beta, com a substituição de uma adenina por timina (GAG → GTG). Esta mutação resulta na permuta do resíduo glutamil pelo valil (β6Glu → Val), provocando a polimerização das moléculas dessa hemoglobina anormal (HbS) quando desoxigenadas (COSTA, 2001).
As moléculas de HbS, quando desoxigenadas, se organizam em longos feixes rodeados de seis filamentos duplos de polímeros. Esses feixes de "cristais" dentro das hemácias determinam as deformações das células, dando à hemácia uma forma alongada conhecida por "hemácia em foice" (COSTA, 2001; ZAGO; PINTO, 2007).
            Os eventos citados caracterizam a doença falciforme por episódios vaso-oclusivos, hemólise, ativação de mediadores inflamatórios e disfunção das células epiteliais. Isso ocasiona uma diminuição do fluxo sanguineo e obstrução da microcirculação acarretando anemia, crises álgicas e insuficiência de múltiplos órgãos (COSTA, 2001; COSTA; ZAGO, 2001; ZAGO; PINTO, 2007).
É sabido que o processo saúde-doença não pode representar um campo separado da dinâmica social. Pelo contrário, tem um caráter peculiar que inclui a multidimensionalidade e, portanto, a multidisciplinaridade. O processo não pode ser considerado como algo em si, mas em uma relação em que se tem desde o biológico até o cultural.  Minayo afirma:
Saúde e doença constituem metáforas privilegiadas para explicação da sociedade: engendram atitudes, comportamentos e revelam concepções de mundo. (2008, p.258)
            Trata-se, portanto, de um fenômeno clínico e social vivido culturalmente e, assim, importa tanto por seus efeitos no corpo, como por suas repercussões no imaginário. Para o estudioso da psicologia social Moscovici (1978), as representações sociais circulam, cruzam e cristalizam-se através da comunicação em nosso universo cotidiano.
A investigação das representações sociais sobre saúde e doença em uma determinada patologia, remete-nos, necessariamente, ao campo de uma “teoria popular”, a um conhecimento particular acerca do fenômeno saúde/doença entre o grupo, elaborado a partir de experiências de vida num contexto sociocultural determinado.
Embora frequente na população, a doença falciforme  ainda não faz parte do dia a dia do diagnóstico médico e de profissionais em saúde e nem da sociedade em geral. Isso se deve, possivelmente, à associação dos sinais e sintomas a outras doenças mais frequentes como a anemia ferropriva, hepatite e doenças reumáticas, algumas relatadas entre os afro-descendentes desde muito tempo (FREITAS, 1935). Esse desconhecimento também na classe médica é uma realidade nossa que tende a ser minimizada com a triagem neonatal.
            Capra (1995) comenta que o modelo biomédico que orienta o pensamento dos profissionais da saúde está influenciado pelo paradigma cartesiano, no qual o corpo humano é considerado uma máquina que pode ser analisado por peças. Essa visão, em nossa opinião, reduz a possibilidade de compreender o processo saúde-doença como fenômeno multidimensional, pois revela que a concepção da racionalidade científica privilegia apenas as variáveis biológicas desse processo.
Como uma doença crônica ainda pouco conhecida e, portanto, negligenciada, o diagnóstico é tardio, e muitas vezes são comuns no cotidiano destas pessoas inúmeros atendimentos em serviços de emergência e frequentes internações que se constituem em momentos de desequilíbrio e de dificuldades para o paciente. Além disso, conforme Cordeiro e Ferreira:
[...] o contexto dos serviços de saúde como espaço de manutenção e legitimação das desigualdades sociais e raciais permite que sejam criados mecanismos para práticas de discriminação racial e de gênero por meio de atitudes negativas (2009, p. 354).

Um pouco sobre o processo falciforme em Alagoas

Início e Programa Falciforme

É interessante notar que um dos artigos pioneiros sobre a doença falciforme no Brasil data de 1947 e foi escrito em área de grande densidade negra: a Bahia. Trata-se do texto de J. Acioly, intitulado Anemia falciforme: apresentação de um caso de infantilismo ([1947]1973). O primeiro diagnóstico em Alagoas – de que temos conhecimento - foi realizado no Laboratório de Análise Clínica do Hospital José Carneiro – confirmado por laboratório americano – por Alzeni Câmara Carvalho de Almeida.  No entanto, a pesquisa sobre a doença no estado só vem ter expressão na década de noventa, cerca de trinta anos após. Observe-se que o inusitado do diagnóstico levou a uma consulta em centro avançado de pesquisa. É necessário o movimento negro forçar, como representante de segmento da sociedade civil, as armações dos serviços classistas do estado, que jamais iriam priorizar a baixa renda, as populações marginais ao sistema e, especialmente, negro, elemento marginalizado tanto no escravismo quanto no capitalismo.
Como passo inicial do que acontecerá em nosso estado, deve ser visto que na década de 70 surgiu o Hemocentro de Alagoas (HEMOAL), que diagnosticava e acompanhava clinicamente casos de doença falciforme, sem, no entanto, ter condições laboratoriais, na época, para exames mais refinados, capazes, por exemplo, de identificação de associação entre as hemoglobinopatias. Não se pode deixar de reconhecer que a criação do HEMOAL foi de alta importância para o trato da hematologia e hemoterapia no estado, e, no caso da doença falciforme, teve um papel central tanto de conhecimento como de prestação de serviços. E este panorama passa a mudar, na medida direta em que, na década de 1990, teve-se a estruturação do Programa Falciforme no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA) da Universidade Federal de Alagoas.
Na realidade, contudo, o HEMOAL ainda não tinha a função de pesquisa, embora ligado à Escola de Ciências Médicas, atual Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) e que se encontrava em consolidação, sem maiores atividades de pesquisa e extensão. A consolidação da pesquisa sobre a doença falciforme foi possível na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), pela integração, basicamente, de genética médica e hematologia. Disso resultam projetos de iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso e pós-graduações, repercutindo tanto no HUPAA quanto no HEMOAL. Como se nota, gradualmente foi sendo formado um corpo de pesquisadores e interessados no estudo da doença falciforme, inclusive ampliando para outras áreas científicas, como ciências sociais e psicologia.
Posteriormente, o HEMOAL atualiza-se técnica e cientificamente, ao ponto de podermos falar na existência no estado, atualmente, de dois núcleos de referência em doença falciforme: ele e o HUPAA. Na época em que se institucionaliza o Programa, ele era ligado aos serviços de Hematologia do HUPAA, onde permanece, com integração acadêmica com as áreas de Genética Médica, Clínica Médica, Pediatria, Ciências Sociais e Psicologia.
Na realidade, quando surge o Programa Falciforme, em 1995, sua preocupação básica era referente ao trabalho social junto a pessoas portadoras de doença falciforme e seus familiares. Frisamos o fato de ser um trabalho social para demonstrar que estava além da linha laboratorial ou simplesmente clínica.  O fundo de suas preocupações era o repasse de informações com o objetivo de possibilitar o autocuidado, facilitando o trato da pessoa e da sua família com a doença, numa perspectiva de educação não formal associada a grupos específicos; no caso seria educação para a saúde, privilegiando o falciforme.
Um dos caminhos seguidos foi a promoção de encontros de pessoas portadoras de doença falciforme e seus familiares. A constância e o nível da discussão estabelecida levaram a que os participantes fundassem a Associação de Falcêmicos de Alagoas (AFAL) e, posteriormente, a Associação de Pessoas com Hemoglobinopatias de Alagoas (APHAL), para maior representatividade social e política das pessoas portadoras da doença. Isso, sem dúvida, fortalecia a possibilidade de uma atuação em defesa dos interesses do grupo, pela organização daquela parcela da sociedade civil. Hoje a APHAL, junto ao HEMOAL, assumem o programa educativo para as pessoas portadoras de doença falciforme e seus familiares.
No entanto, o Programa gerava outros ganhos. Um deles foi a estruturação do Ambulatório do HUPAA para o paciente falciforme, com a organização dos protocolos e sistemática de atendimento. Isso inaugurou uma continuidade de trato ao paciente e, então, ao acompanhamento, o que representava, também, ganhos de conhecimento sobre a doença falciforme e seu modo de apresentar-se social e clinicamente.
Ao mesmo tempo, deslanchou uma programação de pesquisa somando alunos e professores que começaram a estudar com maior ênfase o falciforme, gerando trabalhos de conclusão de curso, projetos de iniciação científica, textos para cursos de especialização e mestrado, além de material para encontros, congressos e similares, abrindo para áreas não médicas, como ciências sociais e psicologia.
Neste contexto o laboratório do HUPAA foi fundamental para subsidiar as investigações e tratamentos clínicos, mesmo não dispondo de métodos sofisticados para o diagnóstico da doença. Atualmente, o diagnóstico da doença falciforme pode ser realizado no HEMOAL e no Laboratório de Triagem Neonatal do Estado, havendo possibilidade de investigação no nível molecular.

Um informe sobre as pesquisas realizadas em Alagoas

           
Ao lado das conquistas sociais e políticas que comentamos brevemente no item anterior, uma série de estudos e pesquisas foram realizados em Alagoas no campo da doença falciforme. Vamos nos deter nos trabalhos que lidaram com os aspectos genéticos e de epidemiologia e listar, em anexo, a bibliografia alagoana. Para melhor documentar este campo de estudos e pesquisas, colocamos em anexo um levantamento preliminar do que foi produzido por nossos pesquisadores, não incorporando Naoum (2000) por se tratar de trabalho sobre Alagoas e não produzido aqui no Estado.          
O campo de pesquisa percorreu uma trajetória. Iniciou com trabalhos de natureza genética/epidemiológica;  depois surgiram textos clínicos e, posteriormente, apareceram escritos na  área de biologia molecular e, finalmente, as investigações  incorporaram as linhas de ciências sociais e psicologia. É claro que a temática vai se somando ao longo da construção do campo, mas a nossa tendência se encontra na área clínica, especialmente pela deficiência no Estado, quanto à infraestrutura de investigação laboratorial. Uma grande parte desta produção vem da iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso, mormente na Clínica Médica.
            Mencionaremos, em primeiro lugar, os trabalhos que falam sobre genética e epidemiologia da doença falciforme. O  primeiro trabalho foi publicado em 1995. Essa pesquisa mostrou uma prevalência de 4% do gen βs – traço falcêmico – entre as gestantes do HUPAA e serviu de incentivo para outras pesquisas sobre o assunto. O quadro 1 apresenta o apanhado dos trabalhos publicados, realizados em Alagoas em populações distintas. Os resultados mostram que as pesquisas realizadas com os recursos existentes naquela época são coerentes com os resultados que aparecem nos dados oficiais da triagem neonatal do Estado de Alagoas (2010): 3,00%, relatados durante o Fórum Alagoano sobre Doença Falciforme (ESTELITA, 2010).



Quadro 1
Trabalhos publicados sobre prevalência do traço falciforme em Alagoas
Publicação
Autor
População
Prevalência
em %
1995
Vilela; Silva; Bandeira (1995)
Gestantes do HUPAA
4,0
1997
Silva; Figueiredo (1997)
Serviço militar do 59º B!MTZ
2,72
1999
Brasil Jr (1999)
Alunos de escolas fundamentais por amostragem de todas as regiões do Estado


3,07
2001
Thomaz; Moreira; Souza (2001)
Gestantes do HUPAA
Recém nascidos (HUPAA)
3,16

2,26
2005
Gomes (2005)
Doadores do HEMOAL
2,06
2009
Lipinski-Figueiredo et al., 2009);
Amostra dos recém-nascidos do SRTN

2,35
    Fonte: os autores do artigo
Ainda sobre genética e epidemiologia, foram produzidas investigações sobre o genótipo das pessoas portadoras de doença falciforme. Como se pode ver, muda o escopo da investigação. No primeiro grupo de pesquisas, sabendo-se que a causa da doença falciforme é uma mutação pontual do gen β globina que codifica uma hemoglobina anormal – hemoglobina S –, a preocupação estava em encontrar pessoas portadoras do gen βs – traço falcêmico –, dentro da população em geral ou segmentos dela. Neste segundo caso que estamos comentando, a preocupação era com a tipagem do genótipo do paciente acompanhado nos centros de referência para a doença: HUPAA e HEMOAL.  
Como se pode verificar, houve demanda por maior complexidade na  pesquisa, o que implicava maior instrumental laboratorial, especialmente para a quantificação das hemoglobinas e identificação dos haplótipos.
A fisiopatologia multifacetada da doença apresenta  alterações que acarretam anemia, crises de dor e insuficiência de múltiplos órgãos. As manifestações clínicas complexas e diversificadas são influenciadas pela característica genética, que determina a concentração intracelular de hemoglobina S e pelos haplótipos, entre outros fatores.
A dupla herança é o genótipo mais frequente no nosso meio, tanto que em Souza (2004) aparece em 77,95% dos pacientes do HUPAA e em Lima (2009) o genótipo SS aparece em 62,2% dos pacientes do HEMOAL, como podemos observar no quadro 2.
Quadro 2
Trabalhos publicados sobre prevalência do genótipo em pessoas portadoras de doença falciforme em Alagoas
Ano
Autor
População
Genótipo (%)



SS
Sβ+
Sβ0
SC
2004
Souza, JS
Pessoas com DF acompanhadas pelo serviço de hematologia do HUPAA (N=59)
77,95

6,77
3,38
1,69
2009
Lima
Pessoas com hemoglobinopatias acompanhadas pelo HEMOAL (N=188)
62,2%

1,1 %
5,1%
Fonte: os autores do artigo

As diferenças observadas entre as duas pesquisas podem estar associadas a diversos fatores, como o tipo de registro, objetivo e método de investigação laboratorial diferentes; além disso, no HUPAA, os registros trabalhados foram especificamente de pacientes com a doença falciforme, enquanto que no HEMOAL trabalhou-se com o conjunto das hemoglobinoplatias.
No que diz respeito às pesquisas realizadas sobre a determinação dos haplótipos do gen βs das pessoas portadoras da doença falciforme no Estado de Alagoas, existe apenas a conduzida por Vilela, Almeida e Figueiredo, datada de 1998, que discute também os resultados, tendo em vista o processo de formação da sociedade brasileira, desalojando o haplótipo como apenas indicador no escravismo, para trabalhar a sua feição no capitalismo brasileiro e seus resultados regionais. Apesar de os dados estarem defasados no que diz respeito às informações sobre África e Brasil em geral, decidimos incorporar elementos do trabalho original com a finalidade de demonstrar o que vamos chamar de geografia do haplótipo brasileiro.
Tendo em vista a escassez de dados em relação aos haplótipos do gen bs, a frequência da doença falciforme em nosso Estado, e a acentuada heterogeneidade genética da população brasileira, o estudo realizado se propôs a analisar  a frequência dos diversos haplótipos do gen bs  entre os pacientes com anemia falciforme (SS) do Serviço de Hematologia do HUPAA/UFAL para confirmar a origem antropológica do gene, suas relações sociais e distribuição espacial.
Nos países Africanos, haplótipos específicos estão consistentemente associados a grupos étnicos da região. Desta forma, os haplótipos são nomeados pelo nome da região geográfica onde eles são mais frequentemente encontrados: Benin (BEN), República Centro Africana (CAR), Senegal (SEN), Arábia Saudita, Ásia ou Cameroon (CAM). Os três mais frequentes haplótipos encontrados nas Américas são BEN, CAR e SEN (POWARS, 1991).
            A frequência de haplótipos do gen βs no Brasil foi analisada por alguns estudos que sugerem predomínio do haplótipo CAR em S. Paulo e, na Bahia, as frequências dos cromossomos CAR e BEN são semelhantes (ZAGO; FIGUEREDO; OGO, 1992; COSTA et al, 1993; FIGUEIREDO,1993; QUEIROZ, 1996). Além do aspecto antropológico, a descoberta dos haplótipos do gene da HbS representou interesse particular na anemia falciforme, pois os diferentes haplótipos poderiam fornecer informações sobre as variações na gravidade clínica nesta doença (ZAGO; FIGUEREDO, OGO, 1992).
            Na tabela I estão resumidos os resultados da análise dos haplótipos. 54 (79,4%) de 68 cromossomos estudados foram do tipo CAR (Bantu), e 14 (20,6%) foram do tipo BEN (Benin). A combinação mais comum foi CAR/CAR (21 pacientes) seguida por CAR/BEN (12 pacientes). Apenas um paciente apresentou a combinação BEN/BEN (Tabela II).
 

Tabela I - Distribuição do Haplótipo βs nos cromossomas de pacientes com anemia falciforme do HU/UFAL

 Haplótipo βs
Cromossomas
  n                            %  
Bantu
54
79,4
Benin
14
20,6
TOTAL
68
100,0




Tabela II - Combinação dos Haplótipos em Pacientes com  anemia falciforme do HUPAA/UFAL

Combinação dos Haplótipos
Pacientes
---------------------------
               n                            %  
CAR/CAR
21
61,8
CAR/BEN
12
35,3
BEN/BEN
01
2,9
TOTAL
34
100,0

Tabela III - Distribuição da Combinação dos Haplótipos em São Paulo, Salvador e Alagoas
Combinação dos Haplótipos
São Paulo
(%)
Salvador
(%)
Alagoas
(%)
CAR/CAR
38,16
20,00
61,80
CAR/BEN
44,74
52,70
35,30
BEN/BEN
10,53
17,40
2,90

               Na literatura sobre a escravidão, é pacífica a afirmativa quanto à existência de um lastro bantu na feitura da colonização açucareira nordestina, tão logo Portugal avançou sobre o que era chamado de Angola. Desse modo, não causa qualquer surpresa verificar os dados produzidos sobre os pacientes do HUPAA, informações que doravante serão citados como Alagoas. Também não causa qualquer surpresa estudar os resultados que foram produzidos para São Paulo e Salvador. A possibilidade de trabalhar comparativamente esses dados é animadora e significativa, pois nos dá margem a ir às raízes do processo histórico nacional. Nessa comparação está levantada uma tese: os haplótipos, para fazerem sentido em sua historicidade, devem ir, obrigatoriamente, para além do escravismo.
              Convém considerar que os haplótipos são atualidades, e que são elementos políticos. Desejamos deixar claro que, do ponto de vista histórico, não falam apenas sobre singularidades orgânicas, mas sobre coletividade. Tudo decorre do fato de que sangue é tempo e, nisso, não é um marcador cronológico, mas em andamento, algo contínuo. Somente partindo dessas proposições é que os resultados obtidos pelos autores começam a ter peso historiográfico, pelo fato de estarem sendo vistos como implicados em relações sociais, em rede. Então, a expressão estatística do haplótipo aparece associada ao tráfico intenso, externo e interno e ao processo de migração que se deu, especialmente, fora do escravismo. Sabemos o quanto de polêmico é abrigado pelo termo escravismo. É fundamental esclarecer que para efeito deste texto ele está sendo entendido como sistema de produção que tem como base a força de trabalho escrava. Essa proposição reduz a pompa teórica das discussões, mas é suficientemente operacional para o objetivo do texto.
               Ao que nos parece, a tendência da literatura que vem lidando com o haplótipo (observação realizada em 1998) é a de realçar o escravismo pelo previlegiamento dado à origem, como se, sub-repticiamente, se desejasse deslocar o Brasil para a época ou deslocar-se a África para o Brasil. Essa nossa afirmativa relativa ao deslocamento é necessariamente provocativa, pois implica, inclusive, o modo de lidar historicamente com o genético: não é o encadeamento orgânico que atribui um local ao fato; essa atribuição é dada pela natureza e forma das relações sociais.
               Possivelmente, vários fatores estão circunstanciando esse privilegiamento das origens, do qual decorre aquele pertinente ao escravismo. No momento, é possível destacar alguns fatores, mas desejamos referir apenas: (a) o genético sem o seu contexto, (b) o fascínio da garimpagem do tempo no DNA e (c), como decorrência, a velha sensação de encontrar marcos iniciais de algo.
               A origem  é essencial, mas levar à fixação em torno dela pode ser – e de fato é – um sério inconveniente para a análise histórica, pois ela será mais valorizada que o processo, forçando a abstração do que é essencial ao sangue que estamos comentando: o político, ele mesmo uma permanente mutação. Desse modo, o elemento fundamental do haplótipo é a sua mutação, é o fato de ser tempo. O escravismo se encontra implicado ao haplótipo, mas ele, o haplótipo vai bem mais além, pois, por ser o processo encontra-se na superação do escravismo. É necessário romper com o quase místico da origem para dar ao sangue a sua densidade de tempo.
               Nesse ponto, o que parece óbvio deve ser revisitado: São Paulo, Salvador e Alagoas não são locais do escravismo, mas do capitalismo. Sendo tempo, o sangue atualizou-se em sua coleta, e nisso o haplótipo trouxe o que poderia ser considerado como essencial: o trânsito, a mudança e com isso se refere, sem dúvida, ao quadro estrutural que é o modo como se procedeu a diferenciação regional brasileira; essa regionalização ainda tem suas melhores indicações em Francisco de Oliveira (1993), trabalho a merecer permanente releitura. Francisco de Oliveira é tão básico sobre o Nordeste quanto Manoel Correia de Andrade (1963), pesando uma diferença de enfoque entre ambos.
               Esta discussão que realizamos, ampliando o significado do sangue, assentando o orgânico na formação social, permite-nos afirmar que estamos diante de um sangue radicalmente diferente do sangue do escravismo, embora continue mantendo um registro: a origem.
               Vamos tomar as indicações de São Paulo quanto ao haplótipo (Tabela III). Pelo menos dois fatores de grande importância estão implicados: a expansão cafeeira e a substituição das importações. Essa é a condição histórica do haplótipo estudado naquele Estado. Ela está associada à construção social, da mesma forma que a doença esteve associada com a malária (Hill et al, 1991), numa implicação direta com a natureza africana. O haplótipo se faz dentro do conjunto chamado cultura, chegando a ocupar posição central e de relevo, como se pode ver no trabalho de Edelstein (1986), que pontua a caracterização de mitos.
               A expansão do café e a substituição das importações correspondem a passos de realinhamento regional brasileiro e,  grosso modo, estariam correspondendo também à montagem do eixo de concentração do capital, que privilegiará sul e sudeste, e não o norte e nordeste. É dessa montagem e é desse eixo que especialmente o haplótipo de São Paulo fala. Com o café, transfere-se parte dos escravos nordestinos e com a substituição das importações, tem-se a transferência da pobreza nordestina, dentre inúmeros outros fatores, valendo recordar que já havia ocorrido remanejamento do escravo no século XVIII.
               Empobrecidos e negros são elementos mutuamente implicados; foi isso que o senhorial levou séculos construindo. Desse modo, quando os empobrecidos nordestinos vão para SP, carregam os negros nordestinos. Tomando emprestada uma expressão de Octávio Ianni citada por Almeida (2003), do ponto de vista do haplótipo, na medida em que se dá a metamorfose do escravo, ele engata-se no que vai ser chamado braço livre. Desse modo, ao atualizar-se na massa empobrecida, o haplótipo é, ao mesmo tempo, prova, testemunho e participação no processo nacional.
                   A combinação dos haplótipos CAR/CAR – 38,16% em SP (Tabela III) – demonstra a expansão do capitalismo  quanto à base bantu e, ao mesmo tempo, como, na região, deu-se a combinação de tipos, correspondendo a uma junção do que  o escravismo teimou em fazer disjunto. Ele, que sempre tendeu a desunir o escravo, tendeu a unir a base empobrecida: CAR/CAR está em 38,16%, CAR/BEN, 44,74% e BEN/BEN, em 10,53%. Juntando os semelhantes, temos uma base de 48,70%. O que se sabe é que a junção de semelhanças estimulava os temores pânicos senhoriais, mas não parecia assustar uma São Paulo capitalista, onde Angola, Congo, Moçambique e outras partes do mundo negro se transformaram em periferia, em desemprego e lupem, para usar a antiga expressão marxista, não como saudosismo político, mas como identificação de um contingente urbano.  Como se nota, quando o sangue se transforma em tempo na escrita, ele passa a ser um dado essencialmente político; o DNA se expande pelo conjunto de indicações que o haplótipo fornece sobre o processo do qual se demonstra inerente. 
            A composição de Salvador responde, também, pela adequação entre o encontro do haplótipo e as matrizes da formação histórica. Sabe-se da sequência das importações dos escravos, da transferência de população e o haplótipo sugere que a predominância nagô tem a ver com o processo histórico. A base está refletida na combinação. Observe-se que há uma predominância de CAR/CAR sobre BEN/BEN, dando-nos um subconjunto de 37,40%, inferior ao de São Paulo, cuja diferenciação, possivelmente, se dá pela expressão CAR/CAR (Tabela III).
               Nessa matriz de dados gerada pela pesquisa e pela comparação com os estudos de Salvador e São Paulo, o caso de Alagoas sugere uma realidade diferenciada. Quando se trabalha com a combinação dos haplótipos (Tabela III), São Paulo e Salvador tendem a um cluster, enquanto Alagoas é diferenciada. Em que, portanto, Alagoas se distingue; e no que o haplótipo estaria apontando para sua história? Convém considerar, de imediato, a diferenciação existente no tocante aos percentuais da combinação CAR/CAR, apontando para um nível bantu que  foge do peculiar às outras duas cidades, possibilitando-nos supor que há uma origem enfaticamente bantu e uma permanência bantu também enfática. Aqui, novamente, o sangue-tempo abre diversas hipóteses e ter-se-ia  que conhecer em detalhes a formação histórica estadual, para que alguém tivesse condições de afirmativas cabais sobre esta relação populacional com a base bantu, diferente de Salvador e de São Paulo, implicando a hipótese de diferentes combinações de haplótipos por áreas de escravismo e de construção do capitalismo. Possivelmente o processo econômico, mormente do açúcar e do algodão, construiu uma condição idêntica para Alagoas e Pernambuco (BEZERRA et al, 2007), que mantém também expressiva quantificação bantu.
               Alagoas é um dos estados mais empobrecidos dentro do Nordeste brasileiro. O modo típico de organização de sua produção, sua taxa de geração de emprego, a pressão até mesmo vegetativa do crescimento de sua população economicamente ativa e outros tantos fatores funcionam como expulsores de população.
               Alagoas expulsa população e não recebe; desse modo, a reprodução tende a ser sempre com elementos também de Alagoas e, no máximo, quando se pensa em litoral e mata, de gente procedente da área açucareira de Pernambuco; assim, a origem bantu tende a permanecer ou, em outras palavras, é altamente provável que sejamos um estado bantu,  marcadamente na mata e litoral, regiões historicamente açucareiras, com a expressão CAR/BEN e BEN/BEN  tendo sido constadas pelas áreas do baixo São Francisco.
               O resultado do estudo aponta para a necessidade de fazer uma história oral e familiar das pessoas que tiveram o DNA pesquisado e cujas vidas foram sumariadas no haplótipo, esta espécie de datação histórica e , na verdade, bom indicador sobre o processo.
               Nesse caminho da história de vida e do cotidiano o sangue vulgariza-se, no sentido de que passa a ser algo do vulgo, do indistinto, e não da ciência, e o DNA remete não para uma simples origem, mas para uma situação social perversa que vive o possuidor da doença falciforme. Até mesmo o nome falciforme tem um quê simbólico; refere-se à imagem da foice, aquela mesma que a morte carrega. No caso, não é apenas uma morte física; é também uma morte anunciada pelas condições sociais, conforme já diagnosticado em outro trabalho (Vilela e Almeida, 1997), na medida em que foi estudada a situação socioeconômica dos pacientes do HUPAA, ligados ao Projeto Falciforme, integrando-os dentro das linhas de pobreza estaduais. Com efeito, estamos diante de famílias com média de 5 componentes, e o paciente tende, neste contexto, a ser um entre cinco ou um entre três filhos de casais portadores do traço falcêmico. Isso significa um acentuado peso financeiro da doença sobre o conjunto familiar.
               Os dados batem com o consignado para todo o Estado de Alagoas, e não vamos repetir o que é conhecido, mas desejamos destacar que, no conjunto, cada elemento que trabalha sustenta a si mesmo e a mais dois componentes da família, um dos quais, possivelmente, é o paciente. No entanto, em alguns casos, é ele que vai sustentar a família com o benefício que recebe.
               Em resumo, o perfil das famílias falciformes é de extremo empobrecimento e, sem dúvida, a doença falciforme agrava financeiramente o orçamento familiar.
               Outro estudo (ARAÚJO; SILVA; VILELA) em 2004, também realizou uma identificação das características socioeconômicas e, basicamente, repete em suas conclusões os  resultados de Vilela e Almeida em 1997. Não houve modificação no alinhamento das características socioeconômicas da população falciforme. O estudo repete o fato de as famílias serem desfavorecidas economicamente, e que a doença tem peso negativo sobre o orçamento familiar, tornando-os ainda mais susceptíveis às complicações da doença e requerendo maior número de internações para as crianças portadoras de doença falciforme cujas mães eram menos alfabetizadas (OLIVEIRA; SANTANA; VILELA, 2000). No entanto, ela avança ao indicar ser necessária que os falciformes atuem politicamente para uma reivindicação direta por benefícios de políticas públicas consequentes, nos diversos níveis de administração.
               É extremamente difícil realizar um repasse do que se construiu em Alagoas em torno da doença falciforme, mas julgamos que fizemos um apanhado breve, porém significativo sobre o que foi produzido e sobre problemas orgânicos e sociais derivados dessa doença. Esperamos que haja uma contínua pressão sobre o poder público partindo da sociedade civil, e que o meio acadêmico, ampliado que está em Alagoas, integre-se ao que chamamos de família falciforme, um grupo social e político que representa sentido de alta importância histórica no conjunto da formação social brasileira. Conforme se pode derivar de Octavio Ianni, em escritos de Almeida (2003), a anemia, as doenças, o falciforme estão no que chamamos de processo e no deslocamento dentro da construção capitalista, numa sociedade que vive com inumeráveis inacabados.

REFERÊNCIAS

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ANDRADE, M. A terra e o homem no Nordeste. São Paulo: Braziliense, 1963.

ARAÚJO, E. L.; SILVA, A. R.; VILELA, R.B. Características Sócio-Econômicas das Famílias participantes do Programa Educativo em Doença Falciforme. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HEMATOLOGIA E HEMOTERAPIA, 2004, São Paulo. Anais... , 2004.

BEZERRA, M. A. C. et al. Molecular variations linked to the grouping of beta and alpha globin genes in neonatal patients with sickle cell disease in the state of Pernambuco, Brazil. Hemoglobin, v. 30, p. 1-6, 2007.


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