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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Transposição do Rio São Francisco







as águas do rio da vida faz barra com  o mar da morte.
(Manoel Neném, antiquíssimo cantador de viola)

Maria Augusta Tavares
Doutora em Serviço Social. Pós-Doutora em Economia e História Contemporânea. Líder do Grupo de Pesquisas sobre o Trabalho na UFPB e investigadora integrada ao Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Autora de Os Fios (In)visíveis da Produção Capitalista (SP, Cortez, 2004), e de muitos artigos sobre a precarização e a informalidade do trabalho. Partícipe da organização e coordenação de outros títulos, como Intermitências da Crise e Questão Social (João Pessoa, Ed. UFPB, 2013) e Trabalho, Acumulação Capitalista e Regime Político em Portugal, (Lisboa, Ed. Colibri, 2017).

“O sertão vai virar mar”: da fé ao fato

Maria Augusta Tavares


O projeto de transposição das águas do rio São Francisco prevê a retirada de 26,4 m³/s de água (1,4% da vazão da barragem de Sobradinho), que será destinada ao consumo da população de 390 municípios do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Concebido há 32 anos pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento – DNOS, de 1985 para cá esse projeto passou por diferentes ministérios, foi tema central do discurso de muitos políticos e gerou muitas polêmicas ambientalistas. Estas, entre outros motivos, são justificadas pelos danos que a transposição causaria à biodiversidade e à utilização do rio em transportes e abastecimento. Preocupações procedentes, no âmbito mais geral. Mas não mais importantes, a meu ver, que as necessidades particulares das populações submetidas a uma deficiência hídrica, historicamente perversa, sobretudo se considerarmos que essa particularidade se expressa em 969.589,4 km², cuja população, segundo o IBGE (2011), é de, aproximadamente, 25 milhões de habitantes.
Posso estar completamente errada ao advogar a particularidade da população do semiárido, a despeito do todo. Há quem diga que a transposição pode fazer definhar o rio no seu curso original. Quase nada sei sobre rios, nem nadar eu sei. Olho para a água com admiração e respeito, e sempre mantenho entre nós uma segura distância. Portanto, espero que este texto apaixonado não seja interpretado como leviandade. Respeito as posições dos que pautam seus argumentos pelo conhecimento científico, ao mesmo tempo que assumo estar sendo conduzida pelas minhas memórias de sertaneja.
Muito já se disse sobre essa realidade, ora abordando o atraso da região e as possibilidades objetivas de desenvolvimento, ora reproduzindo Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, ora distinguindo os nordestinos pela inferioridade, preconceito que, de vez em quando, é revelado através de propostas separatistas, formuladas por segmentos conservadores das regiões mais ricas do país.

Não por acaso, numa referência a um dos estados mais pobres do Brasil, o trabalhador sem qualificação ou sem escolaridade – independentemente do seu Estado de origem – é chamado, em São Paulo e no Rio de Janeiro, de “paraíba”. Milhares de “paraíbas” podem ser encontrados nas referidas cidades, trabalhando como zeladores de prédios de luxo, na construção civil, nos serviços de limpeza e em outras ocupações semelhantes. Em comum, têm, além da origem – a maioria é, de fato, nordestina –, a migração motivada pela ilusão liberal de que a riqueza beneficiaria a todos.
Entre esses migrantes, numa absoluta exceção à regra, um mecânico de escolaridade primária, oriundo do Estado de Pernambuco, tornou-se presidente do Brasil e, como tal, é personagem central desta discussão, uma vez que no seu governo – 2003 a 2006 e 2007 a 2010 – a “vontade política” secularmente reivindicada, no que tange ao acesso à água, materializou-se.
Malgrado quaisquer críticas e discordâncias que se tenha acerca do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, para além dos programas assistenciais em favor da população mais pobre, o fato de ter possibilitado o acesso à água a cearenses, pernambucanos, paraibanos e potiguares o remete à profecia de outro homem comum, que se tornou um personagem histórico na mesma região. Refiro-me a Antonio Conselheiro, protagonista da Guerra de Canudos, educador e missionário laico que, no século XIX, deambulou pelo Nordeste e reagiu às injustiças praticadas contra o povo pobre do sertão. À época, ex-escravos, indígenas e mestiços.


Conselheiro profetizara: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Tal profecia, antes repetida como expressão de fé pelos nordestinos – afirmativa certamente tomada pelo desejo de que só a primeira frase se cumpra –, agora ecoa como realidade, o que explica a quantidade de pessoas que se deslocou, no último domingo, 20 de março de 2017, de todos os estados circunvizinhos, para o Município de Monteiro – PB, com o objetivo de se congratular com Lula e Dilma, a meu ver, não só pela água em si, mas também porque a transposição do rio é, para eles, uma espécie de milagre que fortalece as suas crenças. Para o sertanejo, se uma obra de tamanha magnitude se tornou realidade, a esperança se legitima. Pode-se dizer que com a alma literalmente lavada, a fé do sertanejo está nutrida. Logo, sem nenhuma dúvida, ele pode asseverar: “Deus tarda, mas não falha”.
Pobreza e religiosidade, no Nordeste brasileiro, são indissociáveis. Com isso não estou afirmando que só os pobres atribuem a Deus a responsabilidade por suas vidas. Mas eu diria que aqueles cujas condições de vida permitem associar água a utensílios como torneiras, chuveiros, descargas, banheiras e piscinas têm nas suas negociações transcendentais outra ordem de necessidades. Afinal, essas coisas básicas já fazem parte do seu quotidiano, sem que para obtê-las tenha sido preciso  reza, fé ou espera. Esses afortunados talvez possam, com mais facilidade, entender e concordar com os que são contrários à transposição.
Enquanto isso, aqueles que esperam a chuva, como condição essencial de sobrevivência – o que explica a sua relação com Deus –, não os queira convencer de prejuízos supostamente decorrentes da transposição. “Deus não desampara os justos, os caridosos”, pensam eles. Partindo desse princípio, tirar um pouco de quem tem muito para atender a quem nada tem deve merecer a aprovação divina. Portanto, para os sertanejos, o acesso à água não cabe em elaborações teóricas. É completamente fora de propósito qualquer debate crítico sobre a transposição do rio São Francisco a um nordestino que sofreu a seca na pele, no estômago e, principalmente, na cabeça. Sim, porque afora os privilegiados que têm em casa uma cisterna, onde guardam água para consumir diariamente, a maioria da população – crianças e adultos –, para sobreviver, tem de aprender a equilibrar um recipiente cheio de água sobre a cabeça, às vezes carregado por uma distância considerável.
Essa prática, aliás, deve explicar os meus ombros eretos e a firmeza no caminhar, porque carregar água na cabeça requer elegância. Contudo, ninguém pensa em beleza quando a fealdade do capitalismo impõe que um produto indispensável à vida seja adquirido mediante um esforço que o consome.
Das minhas experiências da infância e da adolescência, em Olho d’Água das Flores, sertão do Estado de Alagoas, guardei muitas lembranças das situações humilhantes que eram perpassadas pela falta d’água, uma vez que se trata de um valor de uso cuja falta é determinante na precarização do trabalho e da vida da população pobre, sobretudo para os que vivem da agricultura, segmento a que eu pertencia. Lembro como era sofrida a distância entre o açude e a casa onde morávamos. Lembro da dureza do meu pai, um agricultor que precisava tirar da terra seca o alimento para dez filhos e que, portanto, exigia que esses filhos o ajudassem. Ora, por que trabalhavam umas crianças enquanto outras brincavam? E por que eu estava exatamente entre as que eram obrigadas a trabalhar? Só muitos anos depois consegui compreender o comando quase militar do meu pai, os seus profundos silêncios, o distanciamento que parecia existir entre toda a família. Memórias essas que me foram trazidas pela festa que fizeram os paraibanos, na cidade de Monteiro, ao, finalmente, terem direito à água.


Mas essas memórias, evidentemente, não se restringem apenas a mim e à minha família. Na rua onde eu morava, todos os vizinhos eram trabalhadores. Talvez não houvesse um sequer que fosse trabalhador formal, com carteira assinada. Uns trabalhavam por conta própria, outros prestavam serviços à população rica. Alguns, para a mesma família, pela vida inteira, mas sem nenhum vínculo que viesse a lhes garantir um benefício por doença, acidente, velhice ou morte. Aliás, eles nem sabiam da existência de qualquer proteção ao trabalhador. Quando ouviam falar sobre direitos, julgavam tratar-se de algo inalcançável. Concepção fundada, obviamente, nos limites a que eram submetidas as suas vidas. Para que se tenha ideia do que para eles era distância, quando se falava de algo como Previdência Social, por exemplo, meu avô dizia, em tom do mais absoluto descrédito: “Isso só acontece lá no Recife!”. Ora, ele estava se referindo ao Estado vizinho. Mas era compreensível, pois toda sua vida estava impressa naquele pequeno sítio, pomposamente chamado de Alto dos Tavares. A sua realidade era expressa no trabalho. O sonho na literatura de cordel, através da qual ele me ensinou a ler. Meus pais, por sua vez, só se tornaram contribuintes da Previdência Social, quando eu já adulta e empregada tomei essa iniciativa. Assim, puderam envelhecer com dignidade, o que agora – convém lembrar – torna-se praticamente impossível, se a reforma da Previdência proposta pelo ilegítimo governo Temer for aprovada. Pobres trabalhadores!
Eu não saberia dizer quanto guardo da minha convivência com aqueles trabalhadores. Nesse exato momento, eu me dou conta de onde vêm as minhas preocupações com o trabalho informal, que se tornara mais tarde meu objeto de pesquisa e que carrego comigo até hoje. Em meio a tantos trabalhadores, lembrei-me agora de dona Sebastiana, uma mulher velha – talvez nem tão velha, talvez apenas castigada pelo trabalho –, que só consigo imaginá-la com uma imensa trouxa de roupa na cabeça. Lavar e passar roupas foram o seu trabalho, de segunda a sábado, por todas as semanas em que acompanhei a sua vida. Provavelmente fez isso enquanto teve forças para se manter de pé e deslizar o ferro sobre roupas que ela jamais vestira. As roupas que ela vestia tinham cores indefinidas, bem ao contrário das que ela lavava e engomava. Apesar da pouca água, o ritual não sofria alterações. As roupas eram ensaboadas com sabão em barra – não havia sabão em pó –, depois colocadas de molho em grandes bacias de alumínio – o plástico ainda não chegara ali –, onde era feita uma primeira lavagem. Depois eram expostas à luz do sol para quarar. Após o tempo necessário para o clareamento, eram enxaguadas, torcidas nas mãos, uma a uma, para eliminar a água e, finalmente, postas ao sol para secar, em imensos varais, na frente ou no quintal da casa, hábito certamente trazido pelos colonizadores portugueses, que até hoje, estranhamente, estendem as suas roupas, como se fossem bandeiras ao vento, em qualquer parte da cidade de Lisboa. Ao menos, nesse pormenor, o Sol agia positivamente. Rapidamente a roupa estava seca.
A mim chamavam atenção principalmente as roupas masculinas domingueiras. Eram, geralmente, de linho branco. Talvez para clarear externamente o que escondiam aquelas almas sombrias. Calças, camisas e paletós eram umedecidos com uma  goma, mistura de água e tapioca mexidas ao fogo. A etapa seguinte era um incontável vaivém do ferro à brasa sobre a roupa, por dias inteiros de trabalho, de pé, sob um calor excessivo. Aos domingos, democraticamente, ricos e pobres iam assistir à missa. Lá estavam os ricos locais enfatiotados nas suas impecáveis roupas brancas, a negociarem o perdão dos seus pecados e participarem contritos da comunhão ao lado da mulher e dos filhos.
Não me lembro de dona Sebastiana na igreja, embora houvesse santos na parede da sua minúscula sala, a presenciarem diariamente a exploração do seu trabalho, sem nada fazerem por ela. Também não me lembro de dona Sebastiana sentada. Sua imagem, nas minhas lembranças, se mostra de pé ou de cócoras. Sim, de cócoras, posição muito incomum atualmente. Afora seu uso em algumas academias de ginástica funcional, eu diria que o “desenvolvimento” aboliu essa posição, que era adotada por homens e mulheres no sertão nordestino. De cócoras as mulheres faziam muitas coisas, inclusive pariam. De cócoras os homens fumavam o seu cigarro de palha e bebiam uma pinga, enquanto esperavam a chuva. Suas esperanças tinham data fixa. Acreditavam que se chovesse no dia 19 de março, dia de São José, o ano estaria salvo.
A esta altura, o jovem leitor, que não conhece o Nordeste brasileiro, deve estar pensando que eu sou pré-histórica. Havia mesmo um lugar onde as pessoas eram capazes de trabalhar de cócoras por horas? Como aquelas pessoas raquíticas, mal alimentadas conseguiam essa proeza, se é tão difícil manter-se nessa posição por alguns minutos aos bem nutridos, de corpos sarados, frequentadores das academias? Que lugar é esse, que na segunda metade do século XX as pessoas não conheciam uma bacia de plástico? Ferro à brasa, o que é isso?


Não, eu não sou pré-histórica, mas nasci e vivi a infância e a adolescência no sertão de Alagoas, Nordeste do Brasil, onde certos traços do pré-capitalismo resistiram por muito tempo. Para que se tenha uma ideia precisa sobre a precariedade, à época, só os ricos tinham luz elétrica em casa. Havia uma fraca iluminação em algumas ruas, um poste aqui, outro acolá, mas as luzes só ficavam acesas até a hora que se convencionara ser a hora de dormir. Não tenho certeza se nove, dez horas. Sei somente da importância daqueles postes na minha vida. Durante o dia, eu estava na escola, ou a ajudar ora meu pai, ora a minha mãe. Em casa, a luz era de candeeiro. À noite, sentada ao pé do poste mais próximo da minha casa, eu tive os mais excitantes encontros da minha adolescência. Encontrei com José de Alencar, Machado de Assis, Jorge Amado, Hemingway, Shakespeare, Dostoievski e tantos outros autores que povoam a minha sã loucura.
Novamente o leitor deve estar a se perguntar de onde vieram esses livros. Essa é uma longa história, que não cabe ser contada aqui. Mas para não deixar a pergunta inteiramente sem resposta, devo dizer que tais encontros foram promovidos, inicialmente, por um professor de matemática, amante da literatura e, depois, por uma mulher que entrou na minha vida por acaso e que a revolucionou. Aqueles livros foram o meu passaporte. Quem leu Balzac e a Costureirinha Chinesa ou viu o filme – Dai Sijie –, vai entender perfeitamente o que significaram os livros na minha vida[i]. Mas retornemos ao tema central.
O surgimento do carro-pipa foi uma novidade. Só a humilhação era velha. Agora, o trajeto entre a água e a casa era menor, mas havia a fila, para que a subordinação não fosse esquecida; havia o empoderamento de quem controlava a distribuição da água e havia um tácito compromisso entre o eleitor que recebia a água e o político que, supostamente, estava a ofertá-la. Na maioria das vezes, para ser fiel à realidade, a troca era explícita. Como eu sentia vergonha de estar naquela fila. Como sofri até apreender a lógica capitalista e perceber que não havia vergonha em ser pobre. Na verdade, entendi que a pobreza é um fenômeno vergonhoso, mas quem devia envergonhar-se não era eu. Vergonha deviam ter os indivíduos que personificam essa rica sociedade capitalista, porquanto a riqueza é resultado do trabalho de gente como eu, como meu pai, como dona Sebastiana e como todos os “paraíbas”.


Anos 90. Para o bem e para o mal, a mercadoria tornou-se predominante mundialmente, inclusive no Nordeste. O plástico era agora onipresente. Sob diferentes formas e cores penetrou em todos os espaços. Com a globalização da economia até as mais longínquas e pobres comunidades foram invadidas pelo Made in China – da manufatura ao eletrônico –, introduzindo novos hábitos e tornando descartáveis algumas ocupações, a exemplo das lavadeiras e passadeiras de roupa. No Brasil, por um lado, o sistema de crédito bancário e, por outro, o Programa Bolsa Família contribuíram para o desaparecimento de muitas Sebastianas. Enquanto algumas famílias puseram no lugar da lavadeira e da passadeira a máquina de lavar e os tecidos sintéticos, as lavadeiras, por sua vez, já não precisavam se submeter àquele trabalho pesado, em troca de um pagamento que só lhes permitia subsistir. Para isso, o Bolsa Família era suficiente. Não foram poucas as mudanças ocorridas, mas a falta de água permanecia. Os antigos meios de transporte cavalos, burros ou jumentos foram substituídos por novas motocicletas. Ninguém morre mais de queda ou de coice. Morre-se civilizadamente, esmagado pelo símbolo do desenvolvimento capitalista, o automóvel. Enfim, tudo é mercadoria, e sob as leis do mercado deve ser consumido.


A água também é mercadoria? Mas como comprá-la nas condições em que vivem os trabalhadores mais pobres? O Estado pode se omitir da sua função social e também entregá-los a Deus? Seria a resignação do sertanejo infinita? A mim parece que uma coisa foi resignar-se à falta de água, quando o sujeito que morava no Estado de Alagoas tinha como concepção de distância a cidade de Recife; outra, bem diferente, é ter acesso à internet, viajar virtualmente pelo mundo, comunicar-se de um continente a outro em tempo real e não ter água para beber, fazer a comida, tomar um banho.
Tudo isso para dizer que compreendo a alegria dos paraibanos e a sua gratidão a quem tornou possível o acesso à água, bem como para justificar a forma emocional como tratei das polêmicas da transposição. Apesar de estar apartada do sertão, sou sertaneja. Nas minhas lembranças ainda ecoa o som do carro de bois, meio de transporte usado por meu pai. Sem enveredar pela generalização, eu diria que, como ele, a maioria dos sertanejos associa dignidade a trabalho. Nessa conquista, portanto, nem de longe passa a ideia de causar prejuízo a quem quer que seja. Não se trata, para eles, de uma competição na qual, para um ganhar, o outro tem de perder.
A profecia de Conselheiro teria de se cumprir integralmente? Para o sertão virar mar, obrigatoriamente o mar teria de virar sertão? Resta-me acreditar que o elevado nível tecnológico disponível encontrará uma forma de legitimar a felicidade dos que agora recebem as águas do São Francisco, sem prejuízo para os que dela dispunham originalmente. É o meu desejo e, certamente, o de todos os sertanejos.


[i]Balzac e a Costureirinha Chinesa é uma crônica da vida na China durante a revolução de 68. Um romance sobre a felicidade da descoberta da literatura, a liberdade adquirida através dos livros e a fome insaciável pela leitura, numa época em que as universidades foram fechadas e os jovens intelectuais mandados ao campo para serem 'reeducados por camponeses pobres'.”
(https://books.google.com.br/books/about/Balzac_E_a_Costureirinha_Chinesa.html?id=lp1GtayPUxAC&redir_esc=y)

domingo, 9 de abril de 2017

A POLÍCIA E O COMBATE ÀS DROGAS: LUTA INGLÓRIA?

A POLÍCIA E O COMBATE ÀS DROGAS: LUTA INGLÓRIA?

Mariana César Góes
              
 O Decreto 667/69, que reorganiza as Polícias Militares, recepcionado pela Constituição de 1988, define as frentes de atuação da Polícia Militar: repressão quando houver quebra da ordem e, também, prevenção, quando houver ameaça a ela. A Constituição de 1988, constituição cidadã, introduz a temática da segurança pública protagonizada por todos os atores sociais. Embora nossa Carta Magna já tenha deixado claro esse desejo de desenvolvimento social por parte de todos e de cada um, percebe-se um discreto movimento popular acerca da resolução de problemas. Do contrário, um número cada vez maior de #bolsomitos ganha destaque. As resoluções odiosas ganham cada vez mais espaço: “O Sr. mora onde?”.
 Políticas institucionais e governamentais orientam "seus canhões" para o problema e as soluções são, ainda, uma incógnita. Evidente que a corrida pela apreensão de drogas é um dos carros chefe da atividade policial, pois a taxa de homicídios e de roubos de rua tem sido alarmante e um dos objetivos do policiamento ostensivo deve ser a retirada de ilícitos do convívio social. Uma dúvida que resta inquietante no atual panorama: A quantidade de drogas apreendidas compensa a quantidade que entra pelo mercado paralelo?
               Sabemos que o problema é bem mais amplo do que a esfera policial e que a atividade do tráfico ilícito de drogas está impregnada em diversos setores da sociedade. Mas - e a guerra está perdida? Depende. Para os que acreditam na política da prevenção como estratégia de combate, talvez não. E, como isso, seria possível - mas é difícil determinar - pois as soluções devem ser construídas com a participação popular e de acordo com as necessidades peculiares de cada grupo.
               Marcos Rolim, especialista em segurança pública, escreveu sobre a “Síndrome da Rainha Vermelha”, onde defende que, atualmente, o policial precisa se esforçar muito em seu labor para resultados de poucas mudanças. Então ele faz uma analogia em seu livro: “A Síndrome da Rainha Vermelha - policiamento e segurança pública no século XXI”. Num trecho, retrata Alice correndo o máximo que pode e sem sair do lugar. Ao indagar à rainha sobre essa estranha característica, diversa de seu local de origem, a rainha responde que, naquelas terras, você precisa correr para não ficar para trás.
               Existe, de fato, entre os cidadãos, a sensação de que, por mais que a polícia trabalhe e prenda infratores, o crime parece nunca receber o controle, em níveis aceitáveis. A polícia sempre corre e se aperfeiçoa cada vez mais, mas parece que nunca sai do lugar. Devemos esse panorama ao fato de que nossa sociedade não detém o conhecimento de que a segurança pública é responsabilidade de todos.
               Sob esse aspecto - a ineficácia do foco no combate - a luta pode parecer inglória e, como disse Darcy Ribeiro, nós não suportaríamos estar do lado de quem está vencendo. Dante Alighieri afirmou: "os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que escolheram a neutralidade, em tempos de crise”. A frustração, no entanto, será bem-vinda enquanto o lado dos que perderam for norteado por justiça e doação para as causas coletivas. Nesse palco, quem não se insere é visto como “do contra” e, então, a comunidade lhe prejudica e causa ruídos no fluxo.
  Quem convive em comunidade sabe que o problema de enfrentamento ao uso de drogas é cruel e choca. Além disso, trata-se mais de uma guerra da saúde pública do que da segurança pública. Preocupa-nos, no entanto, o círculo de entendimentos distorcidos que o combate excessivo expõe. Quanto ao policial, que muitas vezes ainda tem que conter o cidadão, elevando seu poder de uso da força, arrisca-se em nome do ato de serviço.

               Desviemos agora nossos olhares. Tomemos como exemplo uma guarnição que, ao invés de sair em sua ronda ordinária "caçando adictos", envolve-se com a comunidade e propõe ações que visem ao seu empoderamento. Certamente para esse grupo, capaz de promover o desenvolvimento social, a luta possui muita glória e não dá seu trabalho por dispensável, pois ele sabe o valor social que seu labor carrega. Sejamos sempre o elo forte da corrente e que a luta das polícias esteja sempre baseada na ética. Conforme falou Darcy Ribeiro:  "Fracassei em tudo o que fiz, mas meus fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar do lado de quem me venceu". 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Humor e poder. A vida nacional nos traços de Leo Vilanova

A vida nacional chamou a atenção do cronista e nada ele produziu sobre Alagoas. O Brasil, de faro, está posto de uma maneira lúcida, nas charges que  reproduzimos.












As melhores do Leo Vilanovaem março: a incerteza nacional




O Leo este mês  esteve preocupado, exclusivamente, com  a questão nacional. Destacamos duas charges que se completam e abordam um tema de altíssima importância política: a indecisão, a falta de clareza quanto à separação da legalidade e da ilegalidade. É impressionante como os impasses nacionais são escancarados nestas duas charges; a primeira na revisão do lixo  a segunda no jogo a bem dizer de azar pela manipulação.







Leo Vilanova publica diariamente em Gazeta de Alagoas

sexta-feira, 31 de março de 2017

Literatura em Alagoas: Anilda Leão




E a justiça? Nossa justiça brasileira tem sido comparada, muitas vezes às tartarugas, o que acho uma injustiça feita aos quelônios. Os processos se arrastam indefinidamente, fazendo crescer a sensação de impunidade, e há sempre uma brecha na nossa caduca legislação penal de forma a facilitar os chamados advogados de porta de cadeia. Nossa justiça só é ágil quando se trata de aumentar os salários dos juízes e demais membros daquele poder.” Anilda Leão



Poucas pessoas tiveram de mim, o que Anilda teve: o coração. Poucos ou quase ninguém sabia que encontramos um no outro, a perfeição da amizade. Nem sei explicar. Não convivíamos e nem precisávamos. Bastavam furtivos minutos e eu conseguia receber o carinho de minha amiga. Sabíamos roubar do tempo, minutos da eternidade. Luiz Sávio de Almeida



I - Caro Luiz Sávio de Almeida

Carlos Alberto Moliterno

Receber de você a espinhosa, mas também irresistível tarefa de mergulhar nos papéis de minha mãe, Anilda Leão, e de lá recolher crônicas e contos e poemas, de preferência textos inéditos, nunca publicados, para com eles rechear as páginas de O Dia – Caderno Campus -, foi um desafio. Que nem sempre pôde ser bem cumprido.

Anilda era uma mulher que guardava tudo o que escrevia, e era muito o que escrevia. Como é compreensível nesses casos - o clima não ajuda na conservação dos papéis antigos -  as coisas vão se amontoando com o passar do tempo, jogados aqui e ali, nos condicionantes de uma vida extremamente dinâmica e participativa no ambiente cultural e político da terrinha.

Já tivera a oportunidade de constatar o quanto fora prolífica sua participação na imprensa local, ao organizar a biblioteca do meu pai logo após seu falecimento em 1998. Anilda se recuperava então da trombose que a acometera logo após a partida do companheiro de meio século. Enquanto ela padecia mais de um mês de internamento no hospital, e eu me via na perspectiva de perder os dois quase simultaneamente, tomei aquele trabalho como uma terapia.

Além dos então quase 10 mil volumes que tive de manusear um a um, havia muitas caixas e sacolas com recortes de jornais que era preciso organizar e guardar. Terminado o trabalho, com mais de 40 pastas classificando quase tudo que havia saído na imprensa, os recortes referentes a Anilda Leão ocupavam mais do dobro do total. É trabalho não para uma pessoa, mas para uma equipe organizar e pesquisar e que ainda estão em minha casa enquanto não encontram o destino correto.

Devido à impossibilidade de selecionar, dentre tantos artigos saídos na imprensa, o que mandar para o Campus, optei por fazer uma seleção aleatória de trechos desses artigos que expressam o pensamento da escritora e jornalista ante os desafios do mundo, que via sempre com olhos críticos, sobretudo as mazelas políticas e sociais de nossa terra. Por economia de esforços ante o pouco tempo para a tarefa, a maioria dos artigos de onde foram tirados os excertos já estavam digitalizados para publicação, o que significa que são da última década de vida de Anilda. A esses, juntei alguns poemas e contos.

Agora que já são quase 4 anos de sua ausência física, ausência mais sentida a cada vez que abrimos as páginas de opinião de nossos periódicos e constatamos a indigência quase completa do(a)s cronistas atuais, é preciso ressaltar o destemor de uma mulher que não tinha papas na língua ao se expressar em defesa de seus pontos de vista, principalmente a favor dos menos favorecidos como costumava dizer.


II - PEQUENA BIOGRAFIA DE ANILDA LEÃO

                                                                                      Carlos Alberto Moliterno


                       

                       Nasceu em Maceió, no bairro da Levada, no dia 15 de julho de 1923. Filha de Joaquim de Barros Leão, pequeno comerciante e líder classista que viria a ser eleito deputado estadual em duas legislaturas, e Georgina Neves Leão. Cursou o primário e o ginásio nos colégios Imaculada Conceição e Lyceu Alagoano, respectivamente. Formou-se em Ciências Contábeis pela Escola Técnica de Comércio de Maceió.
                        Jornalista colaboradora em diversos órgãos da imprensa local, poeta e cronista, seu primeiro trabalho publicado, um poema feito na adolescência com o título de “Piedade”, já falava de crianças mendigando pelas ruas.
                        Ao casar-se em 1953 com o escritor e jornalista Carlos Moliterno, que era desquitado, causou escândalo na preconceituosa sociedade de então. Teve dois filhos, dois netos e um bisneto.
                        Funcionária pública desde 1975, serviu no antigo Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria Estadual de Educação, hoje Secretaria de Estado da Cultura, e posteriormente como Assessora de Comunicação, em várias gestões, no Gabinete da Secretaria Estadual de Educação. Foi aposentada compulsoriamente, ao completar 70 anos.
                        Colaboradora assídua nas páginas da imprensa local, não só em assuntos culturais como também abordando temas polêmicos, na maioria das vezes voltados para a situação da mulher e dos excluídos, como: aborto, homossexualismo, violência e discriminação. Sempre procurando mostrar sua indignação em face das injustiças e defendendo os marginalizados da sociedade, foi, por isso, taxada de amoral e subversiva pelas mentalidades estreitas da província.
                        Publicou vários livros, em prosa e verso, e faz parte da Academia Alagoana de letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, da Academia de Letras e Artes do Nordeste e do Grupo Literário Alagoano. Presidiu, após a morte de Linda Mascarenhas, a Federação Alagoana pelo Progresso Feminino, primeira entidade a defender os direitos da mulher em Alagoas. Foi ainda conselheira da Cruz Vermelha Brasileira, filial de Alagoas, e da Fundação Teotônio Vilela, além de Presidente de Honra da ATA, Associação Teatral das Alagoas.
                        Ajudou a fundar, ao lado de Selma Bandeira, Terezinha Ramires, Kátia Born, Lygia Toledo, Wedna Miranda e outras, o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher – CEDIM.
                        Participou, em 1963, do Congresso Mundial de Mulheres, em Moscou, quando teve a oportunidade de viajar por diversos países do leste europeu. Ao voltar proferiu palestras e deu entrevistas, causando polêmica e sendo alvo de ataques das classes conservadoras da época. Ao estourar o golpe militar, em 1964, teve cerceado o direito de ir e vir, sendo impedida de visitar parentes que se achavam detidos como subversivos na cadeia local.
           Em sua viagem à Moscou, conheceu Dolores Ybarruri, heroína da guerra civil espanhola e Valentina Tereskova, primeira mulher a orbitar a terra.
                        Declamadora, atriz e cantora lírica, possui certificados de cursos de Literatura Brasileira, Alagoana e Portuguesa, Oratória, Dicção, Declamação, Música Erudita e Popular, Canto Coral e Lírico. Atuou no teatro, no cinema e apresentou recitais de música erudita e popular em vários estados do Nordeste.
                        Não sendo filiada, por opção, a nenhum partido político, Anilda Leão considerou-se socialista desde que começou a entender a extensão e a razão dos enormes problemas sociais do país
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III - CONVERSAS COM MINHA MÃE

Carlos Alberto Moliterno

           
Ainda é muito difícil, apesar de decorridos dois meses, expressar, de maneira objetiva, o que representou Anilda Leão, em minha vida. Seja como a mãe presente e protetora ao extremo, na infância da Rua Goiás, seja como a amiga compreensiva que apoiava incondicionalmente as iniciativas dos filhos na fase adulta. Por isso, numa tentativa de fixar-lhe os derradeiros dias entre nós, vai esse simples relato.
Estando diariamente na sua companhia, com o progressivo declínio de sua saúde, pude acompanhar de perto a má vontade de minha mãe em deixar a vida terrena, onde, em suas palavras, teve de arredar do caminho “as pedras que tolhiam os meus passos, que magoaram os meus olhos, que estigmatizaram o meu corpo”. Aquela alegria e vontade de viver não se dobrariam à doença enquanto houvesse ali perto um passarinho a lhe visitar o terraço ou um jasmineiro a exalar do jardim o perfume que a fazia voltar à infância.
Aquela mulher, outrora forte, senhora de sua vontade, dependendo agora de tantas pessoas e de uma bateria de remédios que lhe consumiam a paciência e o estômago, só entregaria os pontos quando não houvesse mesmo mais jeito. Enquanto esse momento não vinha, ocupava os dias numa rotina restrita, que incluía a leitura do jornal e da correspondência, logo depois do café da manhã, e o estudo de textos espíritas, após a sesta que ia até às três da tarde. Já não sentava mais à máquina de escrever, hábito que foi forçada a abandonar em meados de 2011, após datilografar com dificuldade as suas “confissões de uma jovem de 88 anos”, espécie de prestação de contas a que se sentiu obrigada. Custoso foi deixar de ir às reuniões da Academia e do Instituto Histórico, aos concertos aos domingos, aos encontros semanais em sua instituição espírita ou ao Sítio Velho do amigo Bráulio Leite.
Dona de uma curiosidade que a doença não abalou, sempre que uma notícia lhe despertava a atenção vinha me questionar a respeito. Muitas vezes pediu textos que a fizessem entender ou relembrar determinado assunto ou personagem. E eu lhe providenciava escritos diversos, ora sobre a vida de Che Guevara ou a revolução soviética, ora uma resenha sobre as últimas medidas tomadas pelo governo em relação à economia do país.
Com a memória bastante comprometida para fatos recentes, era para o passado que em muitas ocasiões se voltavam nossas conversas, Era comum, então, que debatêssemos certas atitudes que tomara outrora, pois queria saber o porquê dos caminhos que escolhera no decorrer da vida. E dizia: meu filho, eu acho que nasci fora do tempo. Ou: por que será que vim ao mundo naquela família, onde era tão diferente das minhas irmãs? Irmãs com quem falava diariamente pelo telefone, preocupada com a saúde de uma ou com o problema de outra. Muitas vezes era para o meu pai que voltava o pensamento, indagando se agira bem em deixá-lo sozinho em casa para participar de uma filmagem no sertão ou para apresentar as músicas de Hekel Tavares às plateias nordestinas.
Duas palavras, antagônicas, eram muito faladas por minha mãe: Solidariedade e hipocrisia. Solidariedade humana, expressão que acostumei a ouvir desde a infância, norteou-lhe os passos desde sempre. A outra, que detestava, procurou combater com seus escritos e atitudes e foi motivo das tantas pedras que teve de arredar, uma a uma, com a sua teimosia e a sua fé. E com o seu amor por meu pai, levando-a a desafiar a hipocrisia reinante na acanhada e provinciana Maceió.
Anilda não era uma, eram várias, e eu me sinto agradecido e privilegiado por ter convivido com todas.





IV - EXCERTOS DE ARTIGOS PUBLICADOS NA IMPRENSA

Certamente não são os mais representativos, o que demandaria mais pesquisa. Mas são uma amostra do seu pensamento.

1. O homem e a sua dimensão: “Passados milênios, o homem continua na sua incansável procura de si mesmo, criando e recriando seus caminhos, quase sempre naquele desejo de dominar o mundo. E nessa caminhada nem nos apercebemos de que estamos cada vez mais nos distanciando do sentido do humano, cada vez mais às voltas com o nosso egoísmo e nossa própria individualidade.”

2. Onde anda o civismo dos brasileiros: “Será que já não está na hora dessa gente que ocupa cargos no Senado, câmaras, assembleias, voltar ao tempo em que meu pai era deputado ao lado de homens verdadeiramente patriotas? Hoje o que existe é um mercado vil e nojento. E impiedoso. Ninguém pensa no Brasil, nem em Alagoas, nem no povo, que se dane tudo!... E eles, os que se encontram nessas altas posições, são cada vez mais odiados e malditos a todo instante, essa é que é a verdade.”

3. O destino do homem atual: “O lado espiritual do nosso povo também está em conflito, resultado claro dessa ordem de coisas, da insegurança e principalmente da descrença. A quantidade de suicídios, de homicídios, quase todos com requintes de perversidade, campeia no nosso cotidiano. Diante da terrível crise que o mundo atravessa, quando o homem não vê diante de si um panorama mais vasto e promissor, quando vê a paz distanciada e a chamada democracia falha nos seus mais importantes aspectos, quando vê os seus valores destroçados, que ânimo pode ter?”

4. A solidariedade humana e o momento atual: “O planeta está caminhando célere para o Terceiro Milênio. E decerto muita gente ainda não se deu conta da responsabilidade de cada um diante do fato E quando assim falamos, é por sabermos que o novo século terá de ser mais espiritualizado, mais cheio de humanismo, mais pleno de amor ao próximo. Entretanto, temos de comungar com o pensamento de Tristan Bernard, ao afirmar que a humanidade que deveria ter tantos séculos de experiência, recai na infância a cada geração. E assim, concluímos, prosseguirá na sua cegueira, no seu egoísmo, na sua falta de solidariedade.”

5. A Colheita: “Tudo aquilo que passa não mais retorna, senão nas lembranças, na saudade. As alegrias são fáceis de recordar e até desejar que voltem a acontecer. Mais importante, porém, é relembrar as tristezas sem mágoas, pois esse sentimento é danoso para a alma e para o corpo, chegando mesmo a acelerar o processo do envelhecimento. É necessário evitar isso, pois temos o dever de crescer com muita beleza e muita força em qualquer idade.” (Em Trânsito)

6. Sobre o hediondo: “E a justiça? Nossa justiça brasileira tem sido comparada, muitas vezes às tartarugas, o que acho uma injustiça feita aos quelônios. Os processos se arrastam indefinidamente, fazendo crescer a sensação de impunidade, e há sempre uma brecha na nossa caduca legislação penal de forma a facilitar os chamados advogados de porta de cadeia. Nossa justiça só é ágil quando se trata de aumentar os salários dos juízes e demais membros daquele poder.”

7. Ladrões e larápios: “O que temos observado nos últimos meses em relação à Assembléia Legislativa é de fazer defunto corar. Do alto dos meus oitenta e tantos anos, posso afirmar sem medo que nunca, nunca mesmo, vi tamanha desfaçatez vinda de homens públicos. O cinismo virou regra, matar e roubar sob o manto da imunidade parlamentar tornou-se uma coisa normal. E o homem de bem, aquele que lutando com as dificuldades da vida consegue criar os filhos com dignidade, esse homem olha estupefato para a Casa do Povo, como se não pudesse acreditar na bandalheira que ali vem rolando impunemente sem que se dê um basta.

8. Mergulhando no tempo: “Mergulhando no tempo, procuro recolher pedaços de mim, largados em andanças meninas e marotas. Estradas perdidas nas bifurcações das jornadas, às vezes insólitas, corajosas e até de algum heroísmo ingênuo. Ternura emergindo de olhos tantas vezes magoados, mágoas essas jamais entendidas ou acudidas no devido tempo. Lábios marcados pelas emoções primeiras, corpo alvoroçado pelas carícias que fazem pulsar o sangue nas veias. Mulher despertando, mudanças no corpo – e aí, sim, segredos revelados nas páginas dos livros escondidos em estantes mal trancadas –, sorriso malandro que acha tudo muito melhor do que o contado nas páginas antigas, desatualizadas.

9. Renovação: Começamos a vivenciar a Primavera. E com todo esse alvoroço de pássaros em algazarra, vislumbro no alto da enorme palmeira-leque uma família inteira de jandaias ou papagaios palradores, certamente fugidos dos campos onde as matas são derrubadas todos os dias em nome do ‘dólar’. Mas o sol nos enche de energia e o cheiro gostoso que vem das mangueiras e dos cajueiros vizinhos, faz com que esqueçamos as coisas ruins. E nos dispomos até a perdoar os que nos ofendem e a pedir perdão àqueles que, em nossa ignorância, ferimos alguma vez. Mas também é o momento de agradecermos, emocionados, o carinho e a dedicação dos amigos que estão sempre presentes, nas horas boas e nas difíceis.                        Ah, se nesta quadra risonha do ano, quando parece até que Deus está mais perto, pudéssemos jogar dentro dos corações endurecidos, dos corações sem amor, um pouquinho só dessa beleza toda que a gente sente no ar...

10. A conduta humana: “Sabemos, todos os dias, de crianças praticando crimes os mais diversos e os mais revoltantes. Que penalidade pode ser aplicada a um adolescente? Certo que não será prudente, nem aconselhável, interná-lo numa instituição como a malfadada Febem, que ao invés de educar e recuperar, atira esses meninos num abismo ainda maior; muito menos, como muitos clamam até com histeria, jogá-los nessas verdadeira universidades do crime que são os presídios em nosso país, como pretendem aqueles que pedem a redução da maioridade de 18 para 16 anos. Instituições sérias, com assistentes sociais, psicólogos, educadores, religiosos, é o que essas crianças delinqüentes necessitam.”

11. Arnon de Mello e meu pai: “Eleito governador, Arnon de Mello nomeou meu pai Joaquim Leão, para prefeito de Maceió, e ofereceu-me um emprego do Departamento de Estradas de Rodagens — DER , que meu pai recusou categoricamente, deixando-me frustada. Ele não aceitava cargos para os seus familiares enquanto estivesse no poder, revelando, assim, a firmeza de um caráter eminentemente ético, raramente encontrado nos homens públicos dos dias atuais, haja vista a quantidade de parentes dos políticos que usufruem de toda a sorte de benesses.”

12. Violência contra a mulher: “A mulher ainda precisa fazer valer os seus direitos no mais amplo sentido, pois não é só no campo sexual que é discriminada, mas também no próprio exercício de sua profissão, por não existir igualdade de salários para trabalho igual ao do homem. Acabar com a indiferença social diante das violências que a mulher ainda sofre depende de um trabalho de conscientização, a partir dos conselhos de defesa dos direitos da mulher, hoje espalhados por todo o Brasil.  Denunciar e procurar punição para as agressões físicas e morais de que a mulher é vítima é um dever de toda a sociedade que se propõe a combater, de maneira eficaz, a violência em nosso meio. É uma obrigação sobretudo, de quem se diz justo e cristão.

13. Lula e o preconceito: “Há em torno de Lula uma inegável marca da sua origem social, e é isso que faz com que o arrogante FHC teça, a todo instante, críticas à sua gestão, esquecido de que o novo presidente encontrou um país em marcha ré. Lula, um operário, ex-torneiro mecânico, sem nenhum título universitário, sem anelão no dedo; em sua mão apenas a mostra de um acidente na máquina em que labutava: o dedo mínimo decepado.“

14. O Brasil tem jeito?: “Enumerar os fatos deprimentes que envergonham o país, revelar os pormenores das falcatruas que ainda são tidas como coisa normal, mostrar a bandalheira que ainda existe em muitos setores da vida pública, tudo isso só pode – e é o meu receio – provocar a descrença desta juventude que já está aí bastante aturdida, a um passo do niilismo. As manchetes dos jornais, a mídia enfim, não cansa de bradar, para quem tem ouvidos para ouvir e juízo para entender, que o pobre que surrupiou o frango do vizinho para matar a fome da família, está preso, chutado e esbofeteado. O outro, aquele que é chamado de “colarinho branco”, continua a galgar cargos cada vez melhores, amealhando riquezas, viajando ao exterior, gozando a vida! E rindo na cara da gente...

15. Uma dose de otimismo: “Não vamos ficar apáticos ou desesperançados, ao contrário, vamos ajudar no que pudermos para as mudanças que o país necessita. Que os derrotistas gritem e que os oportunistas de sempre esperneiem, pois sabemos que uns e outros não desejam o bem do Brasil e sim, apenas,  o deles próprios. Vamos dar um voto de confiança ao governo Lula. Para cobrar mais adiante quando, isso sim, teremos uma perspectiva mais exata do que foi ou não cumprido das promessas de campanha. Uma dose de otimismo não faz mal a ninguém. “