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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Violência contra a mulher e a questão de classe


Violência contra a mulher e questão de classe



Poliana Belo: 24 anos, estudante de Ciência da Computação na UFAL, militante do Movimento Mulheres em Luta e do PSTU

La violence contre les femmes et question de classe
La violencia contra las mujeres y cuestión de clase
Violence against women and the class issue

Não é preciso refletir muito para apontar diferentes problemas presentes na sociedade. Muitos são os eventos do dia a dia que comprovam as grandes contradições existentes no mundo. Algumas aparecem na televisão, outras nem tanto, mas a civilização moderna apresenta­se em um modelo de sociedade doente e que sempre apresenta os seus sintomas. O machismo é parte disso. O tratamento da mulher enquanto ser inferior ao homem, inclusive como propriedade dele, é uma das expressões inerentes da atual sociedade. Existe quem negue, diga que a mulher e o homem são tratados igualmente, mas o machismo existe e não faltam dados para comprovar este diagnóstico. É um problema que se expressa de diferentes maneiras.
Uma das faces mais cruéis, e também muito comum dessa forma de opressão, é a violência contra a mulher. Violência física, psicológica e sexual, são muitas as formas de afetar, profundamente, as vidas de todas as mulheres, principalmente das negras e da periferia, que são as principais vítimas de tais atrocidades. 

Combater o machismo vem sendo, cada vez mais, parte da preocupação de muitas mulheres. Seja através dos movimentos sociais, da arte, ou a partir de reações cotidianas, são inúmeras as expressões da resistência feminina. Apesar de, muitas vezes, a mulher ser silenciada, por causa do medo e das fortes pressões que ela sofre, não são raras as situações em que ela responde e encontra apoio. Em meio a este cenário, repleto de opressão, o feminismo vem ganhando visibilidade e se afirmando enquanto ferramenta para conscientizar e lutar contra a opressão machista.

Apesar deste debate e da reivindicação desta ferramenta serem mais restritos aos setores mais favorecidos economicamente, há muito tempo não se viam reações como as mais recentes em resposta aos ataques contra as mulheres. E a luta feminista faz exatamente isso, faz com que a sociedade questione a cultura do estupro, exija a queda de governantes machistas, discuta o assédio no local de trabalho, e por aí vai, exigindo a igualdade plena de direitos entre mulheres e homens. É a luta que surge para querer emancipar as mulheres das fortes correntes ideológicas e morais que as prendem. É querer acabar com uma ideia opressora que causa consequências nefastas a toda humanidade. 

É normal o ser humano, ao se deparar com um problema, tentar resolvê-­lo atacando seus aspectos mais imediatos. É comum, e também importante, combater o machismo exigindo mais investimento em políticas públicas de combate à violência contra a mulher, exigindo uma educação que tenha o debate de respeito perante as diferenças, realizando manifestações e debates sobre estupro. Tais mobilizações são fundamentais para o movimento feminista e são elas que, de certa forma, contribuem para amenizar aspectos da opressão que as mulheres sofrem cotidianamente.

Porém, por mais que se corte as ramificações deste problema e se consiga amenizar alguns impactos do machismo, deve­se entender que esses aspectos não acabam com ele. A luta feminista precisa ser enxergada não só por suas pautas mais evidentes e visíveis no movimento, mas também pelos seus aspectos mais profundos. Se se pretende encerrar um problema de verdade, conseguir cortar o mal pela raiz e alcançar o seu fim, precisamos olhar de forma mais global​ ​para ele, inclusive buscando sobre sua origem. 

É necessário compreender que o machismo é antigo, porém nem sempre existiu. Nem sempre a sociedade foi assim, com a mulher colocada para assumir papéis por causa do seu gênero, enquanto figura do lar, mero objeto de reprodução e com capacidade inferior à do homem. Nem sempre o homem, principalmente heterossexual e branco, foi o centro das famílias e da sociedade. Nem sempre as famílias, hoje monogâmicas, tiveram este formato e composição. É fundamental reconhecer que moldar o homem e a mulher desta forma foi elemento necessário para a construção e sustentação do modelo de sociedade vigente. O machismo, que vem com o patriarcado, não surge enquanto elemento isolado e repentino da história. Tais transformações, das relações sociais e dos núcleos familiares, também não aconteceram impulsionadas por fatores naturais, mas sim econômicos.

O desenvolvimento das forças produtivas para gerar os meios necessários para a sobrevivência humana, possibilitaram uma maior produção de bens para todos, mas também permitiu o acúmulo destes nas mãos de pequenos grupos. Possibilitou que a propriedade, que antes era coletiva, viesse a ser individual e concentrada para o uso de poucos, transformou os bens comuns em propriedade privada. Propriedade esta que possibilitou o acúmulo de riquezas nas mãos de uma ínfima minoria, que enriquece e lucra, cada vez mais, em cima da opressão e exploração da maioria. Pois, aqueles que não são donos das ferramentas e dos meios de produção que antes eram um bem comum, devem vender seu trabalho para garantir o seu sustento, permitindo que tudo aquilo produzido por ele e construído com seu suor, pertença a um pequeno grupo.

Dentro disto, a necessidade de transferir essas riquezas acumuladas ao longo do tempo aos seus parentes e filhos legítimos, ou seja, a herança, só se tornou possível através do aprisionamento e confinamento da mulher. Para garantir a herança e a perpetuação da propriedade privada foi necessário disseminar a ideia da mulher enquanto propriedade do homem, e para tal surge a ideologia machista. O surgimento do machismo e a transição ao patriarcado foram fundamentais para garantir o triunfo da propriedade individual sobre a propriedade coletiva. 

O machismo faz parte da essência do surgimento da propriedade privada e da sociedade dividida em classes. Sociedade em que se busca, antes de tudo, o favorecimento do indivíduo no lugar da coletividade. É uma opressão necessária para garantir a sobrevivência de um mundo cheio de injustiças. E o classismo cumpre a fundamental tarefa de ligar a luta pela emancipação da mulher a luta pela emancipação de todos os oprimidos. O feminismo classista coloca a necessidade de não só confrontar o machismo, mas também a sociedade dividida em classes e o patriarcado, evidenciando a mulher trabalhadora enquanto esmagada não só pela questão do gênero, mas também pela exploração do trabalho. Enquanto houver capitalismo não será possível acabar com a inferiorização da mulher e qualquer outra forma de opressão que servem como pilares desta sociedade que se apropria de nossas diferenças e as transforma em sinônimos de inferioridade. 

Este artigo foi publicado em Campus/O Dia. Maceió

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