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segunda-feira, 29 de junho de 2015

CAVALCANTI, Eliane. O meu caminhar nos anos setenta

 


Este trabalho foi publicado em Campus, suplemento do jornal O Dia,  que circula em Maceió, número 122 de 28 de junho a 4 de julho de 2015

Arts, Ballet, Memories


Eliana Cavalcanti


Bailarina, professora de ballet, coreógrafa e Mestra em Literatura (UFAL).
Estudou balé em Recife- 1958 a 1973. Fundadora do Ballet Eliana Cavalcanti (1973), 1ª escola de balé de Alagoas. Diretora do Ballet Íris de Alagoas (1981- 2002). Diretora da Escola de Dança do Centro de Belas Artes de Maceió. (1987).  Diretora da Fundação Teatro Deodoro (1988).
Sócia efetiva da  Academia Alagoana de Letras e Academia Alagoana de Cultura.  Sócia Honorária da Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes. Diversos prêmios e distinções.


Dois dedos de prosa



Eliana Cavalcanti vem marcando a vida cultural de Alagoas, mormente no que se refere ao ballet, atividade que é difícil pensar, em Maceió, sem os seus passos,  suas marcas, seu devotamento.  Além do mais, como se pode ver em seu texto, é excelente memorialista, o que já havia ensaiado em livro.  


Todas as qualidades estão juntas  neste trabalho,  que é um depoimento sobre os anos setenta, escrito especialmente para Campus. O jornal agradece e compartilha o texto com os amigos. 


Um abraço grande Eliana


Luiz Sávio de Almeida

Primeira Bailarina do Grupo de  Ballet do Recife


O meu caminhar nos anos setenta

Eliane Cavalcanti


    Não devo dizer que me arrependi de ter feito a escolha de morar em Maceió, pois o fato é que o cenário artístico da cidade, no início da década de 70, era promissor. Muitos planos foram elaborados em função de uma vontade férrea e uma crença de que as coisas dariam certo. Eu tinha três nítidos sonhos: constituir uma família, ter uma escola de balé muito séria e dirigir uma companhia de dança.

Os dois primeiros foram realizados, mas, o terceiro... Hoje, tenho plena consciência de que realizei um bom trabalho, venho colhendo muitos frutos, mas, com relação ao meu terceiro sonho, foi uma decepção atrás da outra. Quantos projetos debaixo do braço, correndo atrás de empresas, instituições, pessoas físicas etc.! O Ballet Íris de Alagoas (grupo formado pelos melhores alunos do Ballet Eliana Cavalcanti) foi criado em 1981 e extinto em 2002. O grupo, ou companhia, como é mais comum se chamar nos dias de hoje, produziu trabalhos que honraram a nossa cultura, dançando inúmeras vezes, não só dentro de Alagoas, mas, principalmente, fora dos nossos limites, quando desempenhou um papel de destaque no cenário nacional. 

Nossa meta era transformá-lo em uma companhia profissional de grande projeção. Passados seis anos de sua extinção (por desânimo pessoal e forças esgarçadas), eis que surge uma luz no fundo do túnel, com a possível criação de um corpo de baile do Teatro Deodoro. O Complexo Cultural Teatro Deodoro, idealizado pelo presidente da DITEAL (Diretoria dos Teatros de Alagoas), Juarez Gomes de Barros, inaugurado em 2014, foi planejado para abrigar, entre outras coisas, uma orquestra e um corpo de baile. Passei seis anos (de 2008 a 2014) sonhando e prestando consultoria à DITEAL sem nada cobrar, alimentada pela possibilidade de um desenvolvimento e maior visibilidade da dança em nosso estado.

 O Complexo foi inaugurado no apagar das luzes do governo de Teotônio Vilela Filho. Uns meses antes, durante uma solenidade na qual recebi a Comenda Nise da Silveira (penso que foi prêmio de consolação), questionei ao governador, com veemência, sobre a demora em inaugurar o Complexo que, àquela altura, fim de mandato, se arrastava com lerdeza como o bicho preguiça. Disse eu: “O senhor vai colocar a placa com seu nome no dia da inauguração, mas o espaço estará sem alma, pois bailarinos e músicos não serão contratados a tempo”. As fotos daquele dia me retratam como uma bruxa atacando a um cordeirinho indefeso. 

Comentários de pessoas de dentro do novo governo me dizem que não há verba para tal investimento cultural e que o corpo de baile e orquestra não acontecerão. Essa minha luta de sempre me faz hoje, vésperas de completar 65 anos, uma pessoa desalentada com relação à cultura da minha terra. Falta dinheiro? Sim, é verdade. Mas, efetivamente, falta vontade política, respeito aos nossos artistas. E essa história, como dizemos em terras olindenses, “é mais velha que a Sé de Olinda”.

    
Até 1970, o meu sonho número um era continuar dançando, e depois, montar uma escola de balé em Olinda. De vez em quando, encontro uma senhora daquela cidade querida, mais ou menos da minha idade, que, assim como eu, aqui reside há muitos anos, e sempre que me encontra, repete a mesma coisa: “Olinda chorou a sua ausência. As pessoas comentavam, pesarosas, o fato de você nos deixar; trocar Olinda por Maceió”.

Exageros à parte, realmente todo o trabalho que aqui desenvolvi estava traçado para a velha “Marim dos Caetés”. Mas o destino me pregou uma peça ao me fazer namorar, noivar e casar com um alagoano. Eu não ignorava que as pessoas aqui em Maceió, em termos de balé, pouco sabiam. Três exemplos podem ser aqui contados: 1º− Ainda solteira e adolescente, vim com a minha escola de balé dançar em Maceió, e o pessoal técnico do Teatro Deodoro, inocentemente, encerou o palco para nos receber. Tomamos um susto. 

Foi preciso raspar o palco para que pudéssemos dançar. 2º− Também, por essa época (eu ainda não ensinava balé), recebi um convite para dar aulas, no terraço de uma casa na Avenida Tomás Espíndola, para uma moça que era apaixonada por balé. Eu estava de férias, hospedada no Farol, na casa de minha avó Elisa, e minha tia Jandira me falou de uma sobrinha da atriz e escritora Anilda Leão, que fazia balé no Conservatório de Música, dirigida pela inesquecível maestrina Venúsia de Barros Melo, recentemente falecida. 

À medida que fui lhe passando os exercícios, seus olhos brilhavam. Ao final do curso relâmpago, creio que umas três aulas, ela me pediu que, por favor, viesse morar em Maceió e ensinar balé por aqui. Imagino que eu devia ter uns 14 anos, pois aos 15 comecei a ensinar no Recife, na escola da minha professora. 3º− A sociedade alagoana via o balé como lazer, algo de fácil aprendizado, ou seja, uma arte pouco exigente. No dia do meu primeiro ensaio geral, aquele que antecede à estreia, com figurinos, cenários etc., as famílias das alunas compareceram em massa (pais, irmãos, empregadas, avós, papagaio e periquito). 


Fizeram uma festa no Deodoro. Tagarelavam eufóricos, e crianças corriam entre as poltronas, ou mais em cima, nas frisas, camarotes e torrinha, sem que os pais se abalassem. Acostumada com a clássica e espartana disciplina do balé, dei um grito que deve ter abalado as estruturas do teatro. Deu-se um silêncio mortal, pois todos se calaram. Percebia ali que teria de educar aquelas pessoas presentes para a importância da arte e o respeito pelos artistas. E que o balé, no nosso caso específico, era uma arte dificílima e extremamente exigente. Poucas pessoas tinham essa noção. Exceção, diríamos, para aquelas mais cultas, por estarem permanentemente viajando e assistindo a grandes espetáculos fora de Alagoas. 

Temos de considerar a pouca idade do balé no país. Lembremos que a fundação da primeira escola oficial de balé do Brasil, vinculada ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, só aconteceu em 1927, quando de lá sairiam, alguns anos depois, bailarinos formados por aquela escola que se dispersaram pelo Brasil; entre eles, a minha professora de balé, que passaria a residir e lecionar balé em Recife, em 1957. 

    Em agosto de 1973, eu pertencia ao Grupo de Ballet do Recife, dirigido por Flavia Barros. E foi assim que, às vésperas do meu casamento, dancei no Nosso Teatro (minha despedida de solteira como bailarina no Recife), teatro que, mais tarde, viria a se chamar Valdemar de Oliveira. Eu era 1ª bailarina do grupo e, portanto, assumia os papéis mais difíceis e importantes. Ensaiava muito, dava aulas aqui em Maceió desde o ano anterior (Colégio Santíssimo Sacramento), e em Recife (Curso de Danças Clássicas Flavia Barros), e preparava o casório. 

Minha mãe chegou como convidada, pois todos os detalhes tinham de ser resolvidos por aqui mesmo, como: igreja, bufê, ornamentação etc. Só o meu vestido de noiva foi desenhado e confeccionado no Recife. Tive seis damas de honra, e a igreja foi decorada pela floricultura da senhora Ilma Vilela com cravos nas cores branca e rosa. Por uma decisão nossa (minha e do Carlinhos) casaríamos em Maceió, pois era aqui que havíamos escolhido para morar e, além do mais, a maioria da nossa família aqui residia. De Recife veio um ônibus, locado especialmente para a ocasião, trazendo uma turma incrível: amigos de Olinda e Recife, padrinhos do casamento e a minha diretora e professora de balé, Flavia Barros. Aqui estava selado o meu destino. 

    No enxoval para a lua de mel estavam incluídos: vestidos “tubinho’, calças “bocas de sino”, cintos largos, batinhas, blusas “cacharrel’ e sandálias “plataforma”. Escolhemos Garanhuns: Monte Sinai e Tavares Correia, dois dias em cada um desses hotéis. Meu pai escreveu em seu diário: “Tive lágrimas nos olhos algum tempo, recordando os tempos de Eli, dançando. Tudo passa depressa!”.

    Transcrevo aqui um trecho do livro 50 anos de plié − memórias de uma alabucana, de minha autoria e lançado em 2008:
    “O Jornal de Serviços (Maceió − março de 1973) publicou uma entrevista feita pela colunista Lilian Rose, ocupando meia página, com uma foto minha: ‘Eliana veio transmitir a arte da dança’. Uma outra matéria de página inteira do Jornal de Alagoas, datada de 29 de julho de 1973, com texto de Cavalcanti Barros, comprova que nós já havíamos saído do Colégio Santíssimo Sacramento e alugado um espaço maior, situado na rua Senador Mendonça, nº 211, 1º andar, Centro de Maceió. A reportagem, com quatro fotos, mostra um número crescente de alunas. Considero, portanto, a criação do Ballet Eliana Cavalcanti, meados de 1973. Contávamos com o apoio de uma pianista acompanhando as aulas. A última que ficou conosco mais tempo foi D. Zezé de Almeida, uma artista que havia tocado durante as apresentações de cinema mudo e que também tocava à noite nos restaurantes dos melhores hotéis de Maceió. D. Zezé ficou conosco até quando construímos a nossa sede definitiva e ela alegou estar muito cansada para ter de subir para o bairro do Farol. O fato de a D. Zezé tocar nas noites a fazia cochilar ao piano. Enquanto os alunos se esforçavam num adágio, ela dava um cochilo e retornava numa mazurca, ou eles estavam saltando com um ritmo 2x4 e ela passava a tocar uma valsa brilhante. A moçada ria contidamente para que ela não percebesse, pois respeitavam o seu cansaço”. 

  
Para não sucumbir à falta de apelos instigadores ao meu desenvolvimento profissional, passei a viajar muito para o eixo Rio/São Paulo à cata de mais conhecimentos, ideias e amizades com pessoas que falassem a mesma língua que eu, ou seja, a língua dos baletômanos. Carlinhos costumava frequentar o Estádio Rei Pelé (Trapichão) aos domingos e, quando retornava, me trazia os jornais Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Eu esperava por esses jornais ansiosamente, para saber o que estava acontecendo em termos de arte no Rio e em São Paulo. Dependendo do que estava em cartaz, já comprávamos nossas passagens e saíamos de Maceió com os ingressos garantidos.
   
A criação do videocassete, que começaria a ser comercializado em 1972, dando inicio à distribuição em massa de filmes e documentários, também ajudou, sem dúvida, o meu caminhar. Lembro que em 1974 ou 75, ganhei do marido, a obra O Lago dos Cisnes, em VHS. Daí em diante, não parei mais, comprando outros vídeos. As músicas para as minhas coreografias, quando não encontrava na Eletrodiscos, no centro de Maceió, pedia socorro ao Dr. Raimundo Campos ou ao Dr. Ismar Gatto, ambos médicos e possuidores de rico acervo de músicas de alta qualidade.

    No início da década de 1970, tivemos muitos avanços tecnológicos e acontecimentos marcantes, e o Brasil vivia a fase do “Milagre Econômico”. Uma ilusão, sem dúvida, mas não havia tanta roubalheira, falcatruas ou esquemas de corrupção. As drogas, causadoras de grande parte da violência dos nossos dias, já começavam a se instalar, mas não com o avassalador poder destrutivo de hoje. O setor artístico, a despeito da uma censura acirrada, oferecia um produto diversificado e enriquecedor. Dos músicos que faziam sucesso, podemos citar, entre tantos: Gilberto Gil, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Elis Regina, João Gilberto, Gal Costa, Tom Jobim, Rita Lee, Clara Nunes, Jair Rodrigues, Raul Seixas, Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Este último, o meu preferido (sabia e sei, até hoje, as letras de suas composições de cor). 

Em 1977, eu estava no Rio de Janeiro, quando tive a oportunidade de assistir à peça Gota d’água, escrita por ele em parceria com o dramaturgo Paulo Pontes, à época casado com Bibi Ferreira. Bibi encarnava, magistralmente, a personagem Joana, a Medeia brasileira. A obra tem uma intertextualidade explícita com a tragédia grega Medeia, escrita por Eurípedes em 431 a.C. e é considerada por Aristóteles “a tragédia das tragédias”. Fiquei encantada com a peça, mas não percebi a profundidade das entrelinhas do texto. O que me marcou foi, tão somente, a beleza artística do musical: interpretação, direção, cenários, iluminação etc. Os dois autores, jovens conectados com os problemas nacionais, revitalizaram Medeia, transformando-a na tragédia da história brasileira. 

A obra Gota d’água nos convida a uma discussão que inclui a política habitacional do governo (BNH), o autoritarismo e conflitos gerados pela disparidade do poder econômico. Daí que, mais de trinta anos depois, escolhi  Gota d’água como objeto de estudo do meu Mestrado pela UFAL. E só então, a partir da leitura minuciosa da peça e com o olhar mais experiente, atrelado ao trabalho de pesquisa, pude acrescentar àquela visão ingênua de outrora um conhecimento bem mais aprofundado sobre o texto. O resultado foi o livro, lançado em 2011, e intitulado: Gota d’água − o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra.

   Vivíamos já há alguns anos a Ditadura Militar, o que não influía significativamente no meu modo de vida, a não ser as notícias, vez por outra, de um conhecido que fora torturado ou exilado, o que nos causava indignação e revolta, sem dúvida. Mas, para mim, minha família e amigos, a vida era muito boa. Sempre ouvia os conselhos da minha mãe: “Cuidado com o que fala, pois as paredes têm ouvidos”.

   As nossas famílias muito grandes e já misturadas (um irmão do Carlinhos é meu tio) me preenchiam, pois não havia um fim de semana sem uma comemoração. O churrasco na nossa casa era quase que semanal. Tudo era motivo de festa. Comprava o telefone... festa. A mesinha do telefone... festa. A despensa vivia lotada. Uma fartura. Quando casamos já compramos uma casa própria, e sem nenhuma interferência da família. Os recém-casados podiam se dar a esse luxo, sem ser ricos. Portanto, vivíamos um sonho: fartura, planos e perspectiva. E hoje?

  
  Dizem que nos períodos difíceis é que a produção artística e literária ganha proporções extraordinárias. O fato é que na música popular, no cinema e no teatro tivemos um ganho bastante expressivo, apesar de a censura se manifestar com suas garras castradoras. Com relação à dança nacional temos a fundação do Ballet Stagium de São Paulo, em 1971, como um marco, pois surgiu exatamente nesse período crítico, quando artistas engajados tentavam bradar aos quatro cantos do mundo a situação do país, e eram punidos severamente.

 O “Stagium” veio com uma proposta inovadora e estimulou a criação de novos trabalhos e de novos grupos pelo Brasil afora. Só para citar dois grandes grupos que também viriam enriquecer a cena artística brasileira: em 1975, o “Grupo Corpo”, de Belo Horizonte e em 1977, o “Cisne Negro Companhia de Dança”, de São Paulo.

  
 Aqui em Maceió, um marco a ser lembrado e louvado é a criação da Fundação Teatro Deodoro, em 1978, pelo saudoso teatrólogo Bráulio Leite Junior. Tivemos uma efervescência cultural significativa, pois, a partir daí, frutos foram surgindo, como, por exemplo: a Orquestra Filarmônica (já extinta), o MISA (Museu da Imagem e do Som de Alagoas) e o Centro de Belas-Artes, bem instalado, em parte das dependências do Seminário de Maceió, e hoje numa situação desvantajosa em relação ao primeiro endereço. E outros feitos proliferaram sob a tutela da Fundação Teatro Deodoro. Também, trabalhos individuais se fizeram notar; não citarei nomes para não incorrer no erro de esquecer algum artista que tenha desenvolvido, nos anos setenta, um trabalho relevante para a nossa sociedade e para o nosso estado.

    A década de setenta me trouxe alegrias e me fez tomar decisões importantes. Seguem aqui, elencadas: 1− Minha mudança para Maceió, na verdade, um retorno, pois saí daqui aos dois anos de idade; 2− Meu casamento; 3− A fundação do Ballet Eliana Cavalcanti, primeira escola de balé de Alagoas; 4− Os convites para pertencer a duas companhias profissionais: o Ballet Stagium, de São Paulo (1972) e a Associação de Ballet do Rio de Janeiro (1974); 5− A compra de um terreno, através da Leão Empreendimentos, no Jardim Alagoas, em 1979, onde seria construída a sede da nossa escola; 6− Seria mãe pela primeira vez. 

  
  Todas as decisões tomadas foram muito bem analisadas, mas não acredito no total livre-arbítrio. Podemos ousar, mas pedras ou pedregulhos rolam no caminho brusca e inesperadamente, e nem sempre está ao nosso alcance desviá-las. Nesse momento é que entra a nossa condição de ser humano frágil e limitado diante dos mistérios da vida. Portanto, tenho plena convicção de que tudo estava mais ou menos traçado.

    Em 1975, eu já não pertencia mais ao Grupo de Ballet do Recife, pois o número crescente de alunos não me dava tréguas, exigindo uma dedicação de cerca de 18 horas diárias, incluindo, nesse bojo, algumas horas extras aos sábados, domingos e feriados, com ensaios, redação de circulares para os pais, ofícios, projetos, pesquisa de músicas, criação de figurinos etc. Maceió seria o meu chão, a minha realidade. Aqui nasceram nossos três filhos, e hoje já temos três netos. 

    Resumindo: considero-me uma obreira em prol da arte da dança, consciente do meu papel nesta vida, e triste com o cenário que se impõe no mundo. Estamos vivendo uma era cruel, carregada de egoísmo, violência, descompromisso e deslealdade. Torço para que seja um momento de transição para um mundo melhor, que, pela minha idade, não deverei alcançar. O combate vale a pena quando se tem um propósito, ainda que baseado na fé absoluta de que Deus está no comando. O meu combate sempre esteve muito claro: em prol da arte, em prol da dança. Através da arte, de uma maneira geral, podemos dignificar mais o mundo, dar mais cidadania às pessoas. Por que os políticos, em sua maioria, não têm sensibilidade para a arte, para a cultura? A resposta... sabemos. 

   
Enfim, estarei na luta até as pernas aguentarem e enquanto a cabeça e o coração disserem sim!

 



sexta-feira, 26 de junho de 2015

CAVALCANTE, Fátima Maria Lyra. Violência e a Vila dos Pescadores de Jaraguá

Este artigo foi publicado em Campus/O Dia, nº 121






Fátima Maria Lyra Cavalcante é advogada especialista em direito público, lecionou as disciplinas de direito administrativo e direito constitucional na Faculdade Raimundo Marinho em Penedo e atualmente é mestranda em direito público pela Universidade Federal de Alagoas.


URBANISM, VIOLENCE


A Violência e a Vila dos Pescadores de Jaraguá

Nos últimos meses, veicularam-se notícias de que os pescadores de Jaraguá serão removidos para um conjunto no bairro do Trapiche em razão de um projeto da Prefeitura para construir no bairro histórico uma infraestrutura de apoio à pesca e ao turismo.

Mas nem todos moradores aceitaram a mudança. Graças à resistência de algumas famílias, a Prefeitura ajuizou um processo na Justiça Federal (nº 0004070-23.2012.4.05.8000) visando à remoção dessas pessoas, apesar de ter se comprometido perante o Ministério Público Federal em respeitar a vontade daqueles que decidiram permanecer, um mês antes (inquérito civil 1.11.000.000278/2008-11). 

O discurso da violência e da falta de dignidade é comumente usado para justificar a remoção: “eles vivem em local insalubre, em meio a esgoto e lixo, sem moradia e condições de trabalho dignas”, “o local é reduto de traficantes de drogas, com altos índices de criminalidade”. Sob essa ótica, a intenção da Prefeitura merece aplausos. Quer-se garantir moradias dignas, boas condições de trabalho e segurança às famílias. Aqueles que teimam em permanecer na vila teriam interesse na perpetuação da criminalidade, não sendo justo que toda a sociedade, em especial aqueles que já estão no Trapiche, se prejudique pelo capricho de poucas pessoas.
Mas seria esse o motivo das famílias resistir à mudança? 

Bem, estamos diante de uma comunidade secular, cujo surgimento se confunde com a própria origem da cidade e cuja área de localização foi se reduzindo em virtude da urbanização. Ainda recebeu várias famílias sem relação com a pesca, encaminhadas pela prefeitura na década de 90. São justamente essas famílias que aceitaram a mudança para o Trapiche assim como aqueles que, apesar da pesca ser seu meio de vida, temeram em ser transferidos para a parte alta da cidade ou ficar sem casa.

Na sua essência são uma comunidade tradicional, com modo de vida e saberes próprios e que necessita morar no mesmo espaço de seu local de trabalho. É o modo de construir artesanalmente os barcos, é a maneira peculiar da pesca e a mariscagem, é a forma como esse conhecimento é repassado entre as gerações que caracterizam a sua tradição, dentre outros aspectos.

Apartar a moradia dessas pessoas de seu local de trabalho rompe a tradição da comunidade como um todo, inviabiliza o seu modo de sobrevivência e massacra uma parte da história de Maceió. Basta conversar com um pescador para perceber a importância de morar próximo onde o barco está atracado – ele precisa verificar se os ventos e a maré permitem a viagem. Por vezes, essas viagens ocorrem à noite e não há transportes coletivos nesse horário entre o bairro do Trapiche e de Jaraguá, restando a alternativa de se deslocarem de bicicleta ou a pé, num percurso perigoso de cerca de 3,5km. Ou então, pode-se conversar com uma marisqueira para ouvir que ela pode ganhar de R$ 5,00 a R$ 35,00 por dia com seu trabalho, mas com a passagem de ônibus de ida e volta custando quase R$ 5,00 não compensa se deslocar. Além disso, morando no mesmo local de seu trabalho, ela pode cuidar de seus filhos, mas quem os olhará no Trapiche enquanto ela trabalha em Jaraguá? E se as crianças não presenciarem o dia-a-dia de seus pais, como a tradição será preservada se é no cotidiano que ela se transmite? São algumas justificativas das famílias que “teimam” em permanecer na vila.

 Se de um lado tem-se um projeto para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas e de outro há a necessidade delas permanecerem em Jaraguá, porque não revitalizar a área mantendo no local moradias dignas, pelo menos, para as famílias “resistentes” (cerca de 35 famílias)? A resposta é bem evasiva : Porque o Plano Diretor prevê a área como uma zona de interesse ambiental e paisagístico (ZIAP) e por isso não comportaria moradias (mas permite a infraestrutura pesqueira...).

Entretanto, o fato de ser ZIAP não impede a presença de moradias na área, pois o Plano Diretor assegura o “apoio à população residente para desenvolvimento de atividades relacionadas à pesca artesanal” (art. 34, III). Estabelece ainda que Jaraguá é zona especial de preservação cultural, tendo como uma de suas diretrizes o “incentivo ao uso residencial” (art. 53, II).

O mesmo Plano Diretor nos dá sinais de intenções políticas sobre o bairro, quando prevê a construção de uma marina na enseada de Jaraguá (art. 53, p. único, V). Que garantia se tem que essa marina não será incorporada ao projeto de revitalização, já que foi prevista no Plano Diretor? A marina requer uma local “selecionado” (perto do porto e da área turística) e para pessoas “selecionadas”, não fazendo sentido a permanência de uma comunidade pesqueira em seu entorno.

E então voltamos ao discurso da violência e da dignidade. É mais fácil justificar a transferência daquelas famílias para lhes garantir dignidade do que vislumbrar nas entrelinhas desse discurso uma dupla violência: a omissão do poder público, que nunca dotou a área de infraestrutura e serviços e, agora, utiliza-se da própria torpeza para justificar a sua remoção; e a própria remoção, que destruirá um modo de vida tradicional e, com ela, parte da história de Maceió. É o discurso utilizado para mascarar a segregação sócio-espacial em nossa cidade.