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domingo, 20 de maio de 2018

Rio São Francisco:o berratório de São Francisco em fá de fava

O Blog do Sávio Almeida enfaticamente sugere que você adquira um exemplar deste livro, organizado pelos jornalista Mário Lima E Patrycia Monteiro. Intitula-se Navegar é preciso: pela revitalização do Rio São Francisco. Foi editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. 
O primoroso projeto gráfico e a diagramação é de autoria de Fernando Rizotto. 
Para mim é sem, dúvida, na sua área  o melhor feito em Alagoas neste século, dentro do meu universo de conhecimento. O Blog incentiva a que todo alagoano interessado em ter um material de alta qualidade, procure adquirir um exemplar.




Agradeço aos organizadores o fato de terem colocado um pequeno texto meu, parte já publicado e parte poucos tinham conhecimento. Não sei como descobriram. Trata-se de fragmento de uma peça de teatro que eu pretendia fosse encenada nas ruas do Penedo. Era, provisoriamente, o Auto do Santo e da piaba encolhida
A introdução solene: São Francisco desce de uma canoa em Penedo, o povo o acolhe e canta com louvor e interrogação o berratório de São Francisco. A música tá prontinha na minha cabeça.

O berratório de São Francisco em fá de fava
 
São Francisco,
Como vai o pé de serra?
Como vai o boi que berra?
Como vai vossa Mãe Terra?
São Francisco,
Como vai o boi que berra?

São Francisco,
Como vai o vosso rio?
 Um fio que é desafio?
São Francisco,
Vosso rio corre risco...
Veja o rabo da piaba
Naquele canto parada 
Será rabo de aleluia?
De farinha  na cuia?
Ou de piaba cansada?
São Francisco
Tome posse deste rio
Antes que a água acabe
E a vida da canoa
Fique chorando saudade. 


E seguem as outras partes...
 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Uma nota sobre o Quilombo em Limoeiro de Anadia



Esta é uma notícia sobre o Quilombo e ligada ao município de Limoeiro de Anadia, Estado de Alagoas. Á nota é oportuna e por isto a publicamos, pelo fato de nos lembrar que deve estar sumindo, como tantas outras "manifestações culturais" dentro daquilo que se consagrou chamar em Alagoas de folclore.  Parece-nos que deve ser feita uma leitura  nova disto que é considerado um folguedo, sobretudo buscando sua dimensão política, que nos parece deve ser discutida. Na verdade, é hora de rediscutir sistematicamente a produção da geração que surge em trinta que encontrou Theo Brandão, Diégues e tantos outros. Hora de rediscutir até quando e onde o iberismo chegou à cultura alagoana.

Folklore Folk Art Afro-Brazilian 
Folklore Arte popular Afro-brasileño
Folklore Folk Art Afro-brésilien


O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular assim define em seu Tesauro:

Quilombo (folguedo)

Folguedo afro-brasileiro com variantes pelo Brasil. Pode ser representado em qualquer época do ano por ocasião de festividades ou como entretenimento isolado. Compõe-se de dois grupos numerosos, neles figurando negros fugitivos e índios ou caboclos, vestidos em trajes que lembram os dos reisados, dos guerreiros, etc. e armados de compridas espadas e terçados. Os dois grupos lutam, e no final os negros são vencidos. Há muita música, e o terno de zabumba alegra a representação.

O autor da nota é professor na rede estadual e na municipal em Limoeiro de Anadia e formado em história pela UNEAL

Quilombo
Explosão de Cultura em Limoeiro

O folguedo é representado em qualquer época do ano, geralmente como parte de festividades religiosas. Seus componentes são o caboclinho; o embaixador; a catirina (homem vestido como escrava negra carregando nos braços um boneco); o papai velho; o espia dos caboclos; o vigia dos negros; os reis do encarnado e do azul (índio X negro), com seus trajes que se assemelham com o de outros folguedos do ciclo do Reisado (reisado, guerreiro, etc.); calções, manto, blusa de cetim azul ou vermelho, meias compridas, guarda-peito enfeitado de espelhos, coroa de ouropel e areia brilhante. Como armas, os reis empunhavam antigas espadas. Além desses membros, existe a Rainha, menina entre cinco e dez anos, que usa vestido branco comprido, com guarda-peito de espelhos, capa de cetim enfeitada e diadema de papelão pintado.

Apresentação em 2012
A dança é dividida em três partes: O Roubo e Batuque, realizados na noite anterior à festa; O Resgate, realizado na manhã seguinte; e a Luta e Prisão dos Negros. As duas primeiras por não serem muito apreciadas são por vezes eliminadas da apresentação. Cantam as musiquetas Dá-lhe Toré e Folga Negro, até que em certo momento o rei dos caboclos desfere um golpe contra o peito do rei dos negros ferindo-o de morte. Em seguida a rainha sai pedindo esmolas para o enterro do marido. Entretanto, o próprio rei dos caboclos ressuscita o rei dos negros, fazendo-o cheirar uma folha de jurema, e logo depois reinicia o combate que termina com a prisão do rei dos negros.

Na região de Limoeiro de Anadia, a versão primitiva do folguedo teve seu início a partir da chegada dos primeiros escravos negros por volta do final do século XVIII. Segundo consta na tradição oral, no final do século XIX, um escravo forro, conhecido como João Gruta, procedente de Alagoas (Marechal Deodoro), onde já tinha experiência em apresentações naquela localidade, resolve vir para Limoeiro, onde começa a organizar a dança típica das senzalas para apresentações em praça pública, nas festividades alusivas a São Sebastião e de Nossa Senhora da Conceição.


Quilombo mirim

A partir de 1909, Antônio Jacinto, proprietário da fazenda Gravatá, em Limoeiro, passa a ser o organizador da dança folclórica dos quilombos, estruturando e introduzindo as vestimentas tradicionais como conhecemos na atualidade, e aí sim começa a ser construída a fama de ser um dos melhores de Alagoas.
No ano de 1924, um menino franzino, de nome Abílio, resolve participar do Quilombo de Antônio Jacinto com apenas 12 anos de idade. Tem início a partir daí a história de Abílio Ferreira dos Santos, vulgo Abílio Grande, com os quilombos de Limoeiro. Suas primeiras participações foram como caboclinho, tempos depois passou a capitão, embaixador e finalmente rei do encarnado, a partir de 1960. Desde então, seu Abílio fez com que um folguedo típico de negros e índios, sendo liderado por um branco, se tornasse famoso e extremamente conhecido em todo o Estado.
 Em qualquer lugar que chegasse seu Abílio e o Quilombo de Limoeiro recebiam homenagens. Em Maceió, em Taquarana e principalmente em Anadia. Emanuel Fay, bacharel, professor e escritor fez um poema que em um de seus versos tece o comentário de que os quilombos do seu Abílio era o melhor da redondeza! (RAFAEL, 1994). Este poema, com o título “02 de Fevereiro”, foi uma homenagem à festa da padroeira de Anadia e a todos que contribuíam para o enriquecimento social e cultural da região.
Mestre Abílio acabou falecendo, e mesmo após sua morte, durante muitos anos sua casa recebia visitas de vários estudantes de Limoeiro e de outras localidades para obter informações sobre o famoso Quilombo.
Não podemos esquecer a participação de seu Zé Belo, que, sendo rei do azul ajudou a consolidar a trajetória vitoriosa das apresentações dos Quilombos. Em seguida, Antônio Belo assumiu o lugar deixado por seu pai, continuando a sua saga de sucesso no folguedo limoeirense. Outro importante membro é o Sr. Nelson, que assim como Antônio é um dos responsáveis por momentos de sucesso vivido pela dança folclórica limoeirense.
Segundo o Dr. Valdávio Ferreira, houve outros participantes de destaque no folguedo limoeirense, que ele descreve da seguinte forma:

o contramestre José Silvério; o capitão piloto João Francisco, mais conhecido como João Piloto; os oficiais Pedro do Mato e Sampaio; o mestre Ernesto, filho de Dona Felizinda; o piloto José Ferreira, do Genipapo; o almirante João Juvino da Ribeira; o capitão de mar e guerra José Afonso e Chico Vicente, empregado de Antônio Dionísio de Albuquerque, que entre os anos de 1946/47 ajudava no fardamento dos componentes (Valdávio Ferreira, em 16/06/2013).

Foto de valor histórico: Rainha, 1990
Com o desaparecimento de alguns de seus mestres, o Quilombo de Limoeiro passou por momentos difíceis, mas com a ajuda da população irá voltar a ter o brilho que tinha no passado. Para o bem da cultura, é o que todos esperam.

Política: os extraordinários ensaios vilanovianos

Esta é mais uma série dos fantásticos ensaios vilanovianos sobre a política local, estadual, municipal e internacional. Como se pode notar, são ensaios de longo alcance pois inclusive falam sobre corrupto, prisão, delação. 
Qual a temática dos ensaios vilanovianos?
Depende. E este depende é suficiente para sentir que ele não pende, é imparcial; jamais, portanto,  se verá um ensaio vilanoviano em parcelas; todos são à vista, basta olhar. 
Hoje estamos com diversos, embora nem em prosa sejam.




Antes quero ter o prazer de dar um banho de cheiro no meu ego olímpico!!



E agora os ensaios vilanovianos!!! Tomei a liberdade de aumentar a minha predileta.









Os trabalhos de Leo são publicados na Gazeta de Alagoas diariamente

Maceió: a cidade e seu dia a dia



Estas são fotos tiradas por um pesquisador em construção; demonstram os inúmeros recortes que podem ser feitos da cidade, trazendo pedaços que permitem reduzir as ESCALAS.  Trata-se de Luiz Gustavo Oliveira da Silva, mestrando Dinâmica do Espaço Habitado, FAU/UFAL.









city / people / everyday /  ciudad / pueblo / diario /

Foto 1 – Rua do Comércio esquina com Rua Moreira Lima, Centro

Foto tirada em maio de 2018 na Rua do Comércio em Maceió.
Tirei essa foto pensando em relatar a grande movimentação de pessoas que só o Centro da cidade é capaz de propiciar diariamente. Porém, ao terminar de fazer o registro,  um dos ambulantes veio até mim e disse: “Isso irmão, pode postar no ‘face’! Coloque lá na legenda o artigo 6º da Constituição que a prefeitura tem que dar emprego pra gente!”. Não era minha intenção inicial falar sobre o comércio informal, mas depois disso me senti na obrigação. Chegando em casa com minha ignorância jurídica fui lá verificar esse tal artigo 6º da Constituição Federal e descobri que ele trata dos direitos sociais que deveriam ser garantidos a todos os brasileiros, e um destes direitos é justamente o trabalho. Mas será que dos direitos sociais é só o trabalho que falta nas vidas dessas pessoas?
  
Foto 2 – Rua do Comércio

 
Esta foto foi tirada numa tarde de maio de 2018 na Rua do Comércio em Maceió. O que me surpreende é a quantidade de informação, movimento, vidas presente nesse trecho da cidade. Quantas vidas, interesses, histórias se misturam nesse emaranhado, e mais ainda, o que surge de toda essa interação: conflitos, solidariedade... Enfim, sem perceber ao vivermos nossas vidas e na busca de nossos interesses e objetivos,  estamos sempre interagindo e interferindo na vida de outras pessoas ao nosso redor.

Foto 3– Cerca elétrica


Esta foto foi tirada em maio de 2018 na Rua São Carlos no bairro Serraria. O que antes se restringia a presídios e outras áreas de segurança se tornou rotina em inúmeros imóveis em Maceió. Cercas elétricas, câmeras, arame farpado, espetos pontiagudos, muros altos... Cada um vai se protegendo como pode da violência que assola nossa cidade. E aos poucos, sem perceber, estamos auto aprisionando nossas vidas em busca da proteção dos perigos externos. Mas o que nos protege dessa vida aprisionada sem sentido?



terça-feira, 15 de maio de 2018

Maceió: a cidade e os enfoques sobre a paisagem



Esta é mais uma colaboração de Jessica Cavalcante, jovem pesquisadora que vai procurando mergulhar no campo da escrita e do olhar, treinando-se enquanto partilha conosco o que observa, o que pensa. É um árduo caminho: anos e anos pela frente e sempre sentido que falta e falta alguma coisa e que o começo sempre é agora. Quem deseja a pisada deste tipo de trabalho, deve sempre estar disposto a dizer-se que o começo é agora.  
Às vezes, fico pensando no grande achado dos devotos de meu padrinho Cirço: Ai  caminho tão longe, tão cheio de pedra e areia... A ciência é um caminho cheio de pedra e areia, de sensibilidade. É por fim algo que se começa e não se termina. É como este encontro que a Jéssica teve com as gentes da praia; sempre terá, jamais terminará de ter, mas cada vez será um encontro diferente e os olhos vão vendo, outras vezes, o aparente mesmo.


MACEIÓ: OS ENFOQUES SOBRE A PAISAGEM
Jéssica Cavalcante

            A rotina nos leva a desconhecer a cidade, o fluxo de obrigações e funções sociais nos conduz a um eixo em sentido linear, desviando o olhar dos detalhes externos a esse fluxo. Uma pequena mudança, de posicionamento ou visão, nos faz contemplar o esquecido, quem o ocupa e como ocupa. Dediquei uma tarde de domingo para esse olhar, me debruçando sobre a janela do carro, por vezes saindo do mesmo, ajustando o foco do meu olhar e registrando momentos da cidade.



Figura 01. Ponta Verde, Maceió - AL. 06 de Maio, 2018
 
             
O olhar inquieto e curioso, procura algo ou alguém que provoque espanto, mas com o passar das observações todo detalhe destoante passa a espantar, causa desconforto e burburinho interno. Porém, no momento desta fotografia, me ocorreu o oposto, a cena da mulher sentada no banco em plena Avenida Sandoval Arroxelas, trouxe consigo a delicadeza que se é ocupar a cidade para apenas um descanso, um reconforto, ou um abrigo, mesmo que efêmero. Nesse breve momento me dei conta que fui fotografada pela cidade, capturada por uma das cenas mais banais, como a desta mulher sentada ao banco, em um ritmo descompassado do seu entorno, sem pressa, sem anseios imediatos, apenas ela e sua garrafa de alvejante.



Figura 02. Orla da Ponta Verde, Maceió - AL. 06 de Maio, 2018

           
Praia cheia, de gente, de sol, de energia. Aproveitar o domingo à beira mar com família ou amigos, se banhar, comprar um queijo coalho assado ou um picolé é quase rotina de algumas pessoas em Maceió. Mas o que não notamos por trás desse hábito? Ao percorrer a orla surgiu uma das possíveis respostas, envolvida pelos resíduos presentes nas calçadas, areia e grama. Ela, a poluição gerada pela ocupação na orla, de algumas mentes ignorantes. Nesse mesmo trajeto, após tantos turistas, ele surge, vestido de laranja, com sua vassoura e pá, enquanto todos caminham em direção as belezas da orla ele caminha em direção do descartado, sujo e fedegoso. Esta visão destacou-se do restante, não mais via a poluição e descanso das pessoas, mas descortinava a única pessoa a não desfrutar da nossa orla.

 
Figura 03. Orla da Pajuçara, Maceió - AL. 06 de Maio, 2018.

            É chegada a hora do almoço, pratos na mesa, garçons sempre a postos, mesa arrumada, pedidos feitos, comida quase pronta. Tudo quase perfeito, da mesa pode-se enxergar o mar e sentir a maresia formando uma fina camada sobre a pele. Mas assim como parecem nítidas essas sensações, inversamente, não é perceptível o estado deste homem ao lado, pois ele pertence a uma região desfocada da lente de quem está sentado à mesa. Sua condição, claramente de fome, encontra lugar seguro neste banco, provavelmente o máximo de conforto que ele pode encontrar, sob a sombra de uma árvore. Intrigante como o espaço público, não utilizado por muitos, passa a ser o único lugar de acolhimento de outros.



Figura 04. Orla da Pajuçara, Maceió - AL. 06 de Maio, 2018
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Caminhar na orla, despretensiosamente, por diversas, se não a maioria das vezes, para sentir a brisa do mar, o calor do sol e ver pessoas fazendo o mesmo, é o que imaginamos ser o comum. O que é o comum, senão o olhar restrito e recorrente de práticas triviais. A imagem enfoca o verdadeiro comum, o trabalhador, que se desloca diariamente para a orla na pretensão de bater seu recorde de vendas e tornar com o máximo de lucro possível, pague as contas e traga uma satisfação no fim do mês. A contemplação da cidade, pode  esconder o mecanismo capitalista em cada caminhada.



Figura 05. Ponta Verde, Maceió - AL. 06 de Maio, 2018

         
As ruas são o seu lugar de trabalho, mostram os melhores caminhos de se percorrer, onde existem clientes em potencial e onde não se deve caminhar. Cada passada, uma cena, uma paisagem oscilante, todo dia é um novo cenário, apesar de ser o mesmo lugar. Quantas paisagens esses pés cansados já passaram ou confeccionaram? Tantas, quantas as vezes que por ali passou.